Título: Brasil poderá ter déficit na balança comercial em 2010, prevê associação
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 05/01/2010, O País, p. 20
Matérias-primas já respondem por 70% das exportações do país
BRASÍLIA e SÃO PAULO. Em um ano marcado pela crise, a balança comercial do Brasil mudou de cara. A China praticamente sustentou o superávit do país, desbancando os EUA da posição de principal parceiro comercial do Brasil. Além disso, os manufaturados brasileiros perderam espaço nos principais mercados, sobretudo no americano, que costumava ser seu maior comprador, e ainda foram deixados para trás pelos chineses nos poucos que restaram. O país se consolidou como exportador de commodities e, segundo projeções da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), poderá ter déficit em 2010.
¿ Estamos ao sabor do vento.
Se as cotações de agrícolas e matérias-primas caírem, o cenário para 2010 pode ser até de déficit ¿ disse o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro.
Produtos básicos somam 70% de tudo o que se vende para o exterior, segundo a AEB. A dependência desses preços ¿ sobre os quais o exportador não tem qualquer controle ¿ deixa a balança brasileira em uma situação delicada daqui para frente.
Com real forte, importações podem ter alta de 21% Mantida a expectativa do governo de expansão de 5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) este ano, a previsão é que as importações subam 5%. Esse cenário considera um câmbio mais favorável.
Mas a AEB trabalha com um percentual de 21% de aumento devido à forte valorização do real ante o dólar. Devem fechar o ano em US$ 175 bilhões. Para as exportações, a estimativa é de US$ 170 bilhões, alta de 11%.
Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e economista da Unicamp, Julio Gomes de Almeida observa que a perspectiva para os exportadores é muito ruim, não só por causa do câmbio mas também porque os preços lá fora ainda estão muito baixos.
¿ As empresas podem compensar a baixa rentabilidade das exportações importando o máximo que puderem. Nesse contexto, conseguem aumentar suas margens ¿ disse Almeida.
Entre as commodities, a vedete brasileira em 2009 foi o açúcar, bruto ou refinado. Sua exportação bateu recorde histórico e deve fechar o ano em 4,5 milhões de toneladas a mais do que em 2008, um crescimento de US$ 2 bilhões, ante os US$ 6,4 bilhões do ano passado.
¿ Do ponto de vista das demandas nacional e internacional não houve crise para o setor ¿ disse o diretor técnico da Única, Antonio de Padua Rodrigues.
Com a queda da produção da Índia, segundo maior exportador do mundo, o Brasil passou a ser praticamente o único fornecedor de açúcar. Os indianos tornaramse importadores. De abril a outubro de 2009, já compraram do Brasil 9.000% a mais do que no mesmo período de 2008, passando de 33 mil toneladas para 3 milhões de toneladas.
Nas exportações de manufaturados, os EUA responderam por 60% das vendas brasileiras em 2009, até setembro. Em 2000, o mercado americano era destino de 72% dos manufaturados brasileiros. A pauta para a China, que em 2000 já era concentrada em produtos básicos, passou a 80% até junho deste ano. Os manufaturados caíram de 17% para modestos 6%.
¿ Os chineses elegeram o Brasil como seu fornecedor de matéria-prima e passaram a vender manufaturados aos americanos. Agora, é preciso suar a camisa para diminuir a dependência das commodities ¿ disse Castro.
As brigas no Mercosul, sobretudo entre Brasil e Argentina, prejudicaram as exportações brasileiras. Segundo Castro, o Brasil assumiu acordos voluntários de redução das vendas externas e perdeu terreno para as exportações chinesas.
A AEB reclama de falta de políticas voltadas para o comércio exterior e lembra que, em 2000, o Brasil exportava US$ 20 bilhões, contra US$ 18 bilhões dos chineses. Já no ano passado, a China vendeu cerca de US$ 1 trilhão no mercado internacional, contra US$ 197 bilhões do Brasil.
COLABOROU Ronaldo D¿Ercole