Título: Papa João Paulo II se autoflagelava, diz livro
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Fonte: O Globo, 27/01/2010, O Mundo, p. 28
Monsenhor que cuida da canonização revela que Papa queria ficar perto de Deus
JOÃO PAULO II na Basílica de São Pedro: jejum e sono em chão duro
CIDADE DO VATICANO. O Papa João Paulo II se autoflagelava regularmente para se aproximar de Deus e assinou um documento secreto comprometendo-se a renunciar ao Pontificado caso ficasse incuravelmente doente, revelou um livro lançado ontem pelo monsenhor Slawomir Oder, o funcionário do Vaticano encarregado do processo que pode levar à canonização de João Paulo.
O livro, intitulado ¿Why a Saint?¿ (Por que um santo?), publica as cartas com a renúncia do Papa, até agora inéditas, e narra detalhes da vida íntima do Pontífice. Conta, por exemplo, que João Paulo II dormia no chão como prática espiritual e desarrumava a cama de manhã para que seus assessores não percebessem.
João Paulo II faleceu em 2005 com uma série de complicações médicas decorrentes de uma infecção urinária. Sua morte aconteceu depois de longos anos de sofrimento físico: por mais de uma década padeceu de Parkinson e quase morreu em 1981, quando foi baleado num atentado.
Cinto guardado em armário servia de açoite
O livro revela que João Paulo se flagelava, algo conhecido no cristianismo como mortificação, para reproduzir o sofrimento de Jesus e sentir-se mais próximo de Deus.
¿Tanto em Cracóvia como no Vaticano, Karol Wojtyla se flagelava¿, escreve Oder no livro, citando depoimentos de pessoas do círculo mais próximo de João Paulo II na época em que ainda era bispo em seu país de origem, a Polônia, e depois de ser eleito Papa, em 1978.
Segundo Oder, o Papa guardava um tipo especial de cinto pendurado num cabide junto com suas vestimentas e o usava como açoite.
¿Alguns de seus colaboradores conseguiam ouvir quando ele se flagelava, no Vaticano e inclusive durante uma viagem à Polônia.¿
Ainda segundo o autor, quando era bispo na Polônia, João Paulo frequentemente jejuava e dormia no chão duro para praticar o asceticismo. Muitos santos da Igreja Católica, incluindo São Francisco de Assis, Santa Catarina de Siena e Santo Inácio de Loyola, praticavam a flagelação e o asceticismo como parte de sua vida espiritual.
O livro também confirma que em 1989, antes de se operar para retirar um tumor, João Paulo redigiu um documento para seus assessores afirmando que renunciaria ao Pontificado se ficasse incuravelmente doente ou permanentemente incapacitado de cumprir seus deveres de papa.
A existência do documento foi motivo de muitos rumores e relatos ao longo dos anos, mas pela primeira vez o texto foi publicado na íntegra no livro.
Além disso, Oder conta que João Paulo II considerou renunciar ao completar 75 anos, quando geralmente bispos se aposentam, e reuniu um grupo de colaboradores para discutir informalmente a questão. Ele pediu ao então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, para estudar as implicações teológicas e históricas de se ter um papa emérito. Se tivesse renunciado, teria sido o primeiro pontífice católico a fazê-lo por vontade própria desde 1294.
No fim, deixou a questão a cuidado dos cardeais, que nunca se decidiram pela opção da renúncia. E o Papa decidiu permanecer em sua função até a morte, dizendo que isso era para o bem da Igreja. Antes de falecer, João Paulo II passou dois meses entrando e saindo de internações. No final, já não conseguia mais falar.
Livro é lançado apenas em italiano
João Paulo II chegou mais perto da canonização no mês passado, quando o Papa Bento XVI aprovou um decreto reconhecendo que seu predecessor viveu a fé cristã heroicamente. Este foi um dos passos chaves no procedimento pelo qual a Igreja reconhece seus santos.
O próximo passo será o reconhecimento de um milagre atribuído a ele. O milagre sendo estudado envolve uma freira francesa que foi inexplicavelmente curada do mal de Parkinson depois de fazer uma oração para o Papa. Depois de o Vaticano reconhecer o acontecimento como milagre, João Paulo poderá ser beatificado.
O livro começa a ser vendido hoje na Itália. A editora, Rizzoli, disse que não há planos por enquanto de traduzir a obra.