Título: Em Davos, elogio e alerta ao Brasil
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 28/01/2010, Economia, p. 21
Para analistas, apesar da estabilidade do país, próximo presidente precisará acelerar reformas
DAVOS, Suíça Opresidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca hoje na Suíça para ser recebido amanhã no Fórum Econômico Mundial, em Davos, com o país no topo: o Brasil nunca foi tão elogiado. Mas um dos gurus do encontro, o economista Nouriel Roubini ¿ que em 2006 previu a crise financeira mundial ¿ alertou ontem, na abertura do evento: o próximo presidente terá que fazer as reformas estruturais que Lula não fez se quiser levar o país mais longe.
¿ O tamanho do governo e da burocracia é muito grande. Há excessiva distorção em taxação e vocês precisam de investimentos em infraestrutura numa combinação de investimentos privados e públicos ¿ disse Roubini, chamado de Dr. Apocalipse, por suas previsões pessimistas.
Para o economista, o Brasil precisa investir na qualificação de mão de obra e dar mais flexibilidade à economia: ¿ Dou crédito à Lula por ter conseguido macroestabilidade. Estou otimista em relação ao Brasil.
Mas se quiser aumentar o potencial de crescimento, será preciso reformar a microeconomia. Vamos ver quem será o próximo presidente e se ele ou ela vai estar comprometido em acelerar reformas.
Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, concorda: ¿ Todo mundo no Brasil sabe que isso é verdade: obteve-se estabilidade e o próximo item na agenda é melhorar as perspectivas de crescimento.
Rogoff diz que o Brasil terá uma boa década, mesmo sem muita mudança, impulsionado por estabilidade e preços das commodities. O país vai crescer mais rápido nesta década, aposta. Mas, com reformas, pode ser melhor: ¿ É claro que precisa de reformas estruturais em vários níveis. O governo é muito grande, a legislação trabalhista é muito rígida. Há grande protecionismo comercial e muitas áreas onde o Brasil pode ser mais forte. Mas vocês conseguiram uma tremenda estabilidade com o governo Lula. O desafio para o próximo (presidente) é não engessar a economia.
Raghuram Rajan, professor da Universidade de Chicago, outra estrela da abertura dos debates, era praticamente só elogios: ¿ A recuperação brasileira é forte. O consumo está alimentando uma nova classe média. Mais do que outros emergentes, o Brasil ficou isolado da desaceleração nos países industriais, porque suas exportações são mais orientadas a commodities e agricultura.
Para Rajan, como para a maioria dos economistas de olho no Brasil em Davos, a questão agora é quem vai assumir depois de Lula: ¿ A preocupação é saber se, com a mudança de governo, as políticas a serem adotadas serão razoáveis e se haverá continuidade das políticas.
Políticas podem sempre melhorar. A questão é: vão piorar? Rajan diz que o Brasil tem o mesmo desafio que a Índia: incluir a população pobre que ficou para trás. Para ele, o governo brasileiro está ¿claramente¿ fazendo transferências (gastando) com este objetivo, mas tem que tomar cuidado para não se exceder e causar um buraco no orçamento.
Um consenso ficou claro ontem no Fórum: os emergentes vão continuar puxando o barco da economia mundial.
Roubini, por exemplo, vê uma recuperação mundial anêmica nos países ricos, com os emergentes se saindo melhor do que as economias ricas.
¿ Mas China sozinha não pode ser a locomotiva ¿ alertou.
O megainvestidor George Soros, por sua vez, disse que está preocupado com um superaquecimento da China.
¿ Lidar com o aquecimento da economia chinesa permitindo a valorização da moeda é provavelmente a melhor forma ¿ sugeriu.
Lula: `cachorro magro¿ virou credor
O presidente Lula disse ontem em Pernambuco que pode ¿falar grosso¿ para o mundo, devido à situação econômica do Brasil. Ele comparou o país do passado a um ¿cachorro magro com o rabo entre as pernas¿, que se curvava ao Fundo Monetário Internacional, mas hoje é credor da instituição.
¿ O FMI chegava ao Brasil humilhando o governo brasileiro, dando palpite. Agora quem fala grosso sou eu. Se antes era o Brasil que devia ao FMI e ficava como cachorro magro com rabo entre as pernas, agora quem me deve é o FMI.
Lula relembrou sua ida a Davos em 2003.
¿ Quando cheguei lá, era só desconfiança: que o Brasil ia quebrar, que o Brasil não ia dar certo, que não íamos conseguir governar, que a inflação ia voltar, que íamos ser o fim do Brasil. Agora estou voltando para receber o título de presidente Global do Ano de 2009 ¿ disse, referindo-se ao prêmio ¿Estadista Global¿, que lhe será entregue pelo Fórum.
COLABOROU Letícia Lins, de Recife, com agências internacionais