Título: Haiti não é Iraque
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Fonte: O Globo, 30/01/2010, O País, p. 6

A comunidade internacional tem duas experiências recentes sobre o que não deve ser feito no Haiti. A ONU afundou num escândalo, ainda na era Saddam Hussein, no programa Alimentos por Petróleo, cujo objetivo era permitir a Bagdá vender óleo para comprar comida. O programa se tornou um poço de corrupção, com Saddam e seus asseclas se locupletando e funcionários, inclusive da ONU, enchendo o bolso. O Haiti não tem petróleo, mas o exemplo ilustra os riscos envolvidos em programas de ajuda.

Os EUA, no governo Bush, transformaram a reconstrução do Iraque num show de horrores, com bilhões de dólares canalizados para empreiteiras sem que melhorasse a produção de petróleo, de energia elétrica e outros serviços básicos de um país arrasado por três guerras ¿ uma com o Irã e duas contra a última superpotência. O modelo, claro, não serve ao Haiti. Depois do terremoto, há dois pontos básicos em relação ao país do Caribe. O primeiro é manter o interesse da comunidade internacional depois de ele deixar as manchetes ¿ o que não será insensibilidade da mídia, mas necessidade básica do jornalismo: noticiar fatos novos. O segundo é o que fazer no/e do Haiti. A (re)construção não deve ser a pretendida pelos EUA, ou pelo Brasil, mas a que se subordine ao desejo da sociedade haitiana, por maiores que sejam suas limitações. As ideias sobre regime de governo, instituições públicas, partidos políticos, distribuição da população, economia etc. devem surgir de um consenso entre os haitianos, ouvidos os países mais próximos ¿ EUA, França, Espanha, Brasil, República Dominicana ¿, a ONU e o Banco Mundial.

A execução deve ser conduzida pela ONU com apoio do governo haitiano e dos países e instituições citados. O desafio será minimizar os desvios e desvãos dos projetos criados para dar ao país algo que ele jamais teve: um futuro. Novas abordagens devem incluir um amplo acordo para baixar as tarifas de importação sobre produtos haitianos, como já propôs o Brasil; o aproveitamento da mão de obra local nas obras de reconstrução ¿ uma forma óbvia de criar empregos; e um projeto para atrair os 85% mais instruídos que moram no exterior.

Seria uma forma de incorporar a visão deles sobre o futuro do país e um estímulo para que voltem para participar dele. O drama haitiano parece ter sensibilizado os poderosos no Fórum de Davos, com a ajuda do ex-presidente Bill Clinton: empresários de vários países e setores começaram a debater oportunidades de negócios e investimentos para auxiliar o Haiti a recomeçar.

Há um longo caminho à frente