Título: Medico que operou jornalista será indiciado
Autor: Brígido, Carolina
Fonte: O Globo, 30/01/2010, O Pais, p. 10
IML diz que cânula usada na lipoaspiração atingiu o rim; delegada quer que cirurgião responda por homicídio doloso
A PERITA LUCIANA Satie, do IML, e a delegada Martha Borraz dão explicações sobre a morte de Lanusse durante uma lipoaspiração
BRASÍLIA. A delegada Martha Vargas Borraz, da 1ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal, vai indiciar o cirurgião Haeckel Cabral por homicídio doloso (intencional) pela morte da jornalista Lanusse Barbosa, de 27 anos. Ela morreu na mesa de cirurgia segunda-feira, enquanto era submetida a uma lipoaspiração. O médico será indiciado por dolo eventual (quando a pessoa assume um risco que pode resultar em morte).
Segundo laudo do IML, divulgado ontem, uma cânula rompeu a parede abdominal e atingiu uma veia do rim, provocando sangramento. A jornalista teria perdido cerca de dois litros de sangue antes de morrer.
¿ O laudo é concreto. Houve dois erros médicos. O primeiro foi ter deixado a cânula ultrapassar a parede abdominal. O segundo foi o médico não ter percebido imediatamente e aberto a paciente para tentar estancar o sangue. Foi feita a reanimação, que faz com que o sangue jorre mais ¿ disse a delegada.
Segundo Martha, o anestesista chegou a falar para o cirurgião que havia algo errado, pois a paciente estava perdendo os sinais vitais. Lanusse teve uma parada cardíaca, e a equipe tentou reanimá-la por 1 hora e 13 minutos. A delegada acredita que, para salvar a paciente, o cirurgião precisaria ter aberto o abdômen para verificar o que tinha acontecido.
A perita do IML Luciana Satie, que fez a autópsia, disse que não havia sangue na câmara do coração de Lanusse.
A delegada disse que, para chegar à conclusão do indiciamento do cirurgião, ouviu sete depoimentos, examinou provas e analisou o laudo do IML. Cabral foi intimado para prestar depoimento, mas apresentou um atestado médico e não compareceu. Martha disse que não vai indiciar outros membros da equipe, já que a responsabilidade pela cirurgia era de Cabral. Ela acrescentou que ainda não chegou a conclusões sobre a conduta do anestesista.
Martha ainda ouvirá outros depoimentos na próxima semana, como, por exemplo, dos familiares, que ainda não compareceram à delegacia porque não tinham condições psicológicas. Ela disse que ainda não desistiu de ouvir a versão de Cabral, embora não tenha dúvida da conduta supostamente imprudente do médico. Caberá ao Ministério Público local avaliar a conclusão da delegada. Se os promotores concordarem, o médico será denunciado ao Tribunal do Júri do Distrito Federal. Se for condenado, Cabral poderá cumprir pena de 6 a 20 anos de prisão.
Diretor-adjunto do IML diz que não houve negligência
No IML, porém, há controvérsias sobre a conclusão da delegada. Segundo o diretor-adjunto do instituto, Volnei Mendes, seria improvável o rompimento de um vaso durante uma lipoaspiração e, por isso, não se cogitou abrir a paciente:
¿ As manobras de reanimação são necessárias. Numa cirurgia desse tipo, não se pensa em rompimento de vaso. Não foi negligência, foi um grande azar.
O diretor-clínico do Hospital Pacini, Mario Pacini, disse que a hemorragia que matou Lanusse seria difícil de conter em qualquer centro cirúrgico. Segundo ele, a veia ligada ao rim pode despejar até meio litro de sangue por minuto. O diretor, que também é um dos donos do hospital, afirmou que a existência de uma UTI não faria diferença, pois a paciente só poderia ser deslocada depois que a hemorragia fosse controlada. O Conselho Regional de Medicina do DF não comentou o laudo do IML.