Título: Meirelles não vê espaço para mudança no próximo governo
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 30/01/2010, Economia, p. 23

Titular do BC alerta que alteração no rumo da economia pode fazer país voltar aos desequilíbrios do passado

DAVOS. Não há espaço para mudanças drásticas na política econômica no próximo governo, disse ontem o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, no Fórum Econômico Mundial de Davos, ecoando o que vem dizendo o ministro da Fazenda, Guido Mantega. É o que perguntam empresários e acadêmicos este ano sobre Brasil: o que fará a equipe econômica do próximo presidente? Nesse ponto, os dois estão sintonizados. Meirelles alertou que uma tentativa de mudança radical poderá levar o Brasil de volta aos desequilíbrios do passado. Ele insistiu nisso não apenas com jornalistas, mas com investidores.

¿ Acredito que existe muito pouco espaço político para uma mudança drástica de política econômica, seja o candidato que for ¿ afirmou.

Para Meirelles, acabou o dilema que existia antes entre crescimento e estabilidade: provou-se que é possível ter os dois. Se o próximo governo mantiver o rumo atual de estabilidade, a taxa de juros real do Brasil vai continuar a baixar, e o país vai crescer.

¿ Os juros reais estão caindo na taxa de mercado de 360 dias. Mantendo-se a estabilidade, tudo indica que esses juros reais continuarão a cair.

Se mantiver a meta de superávit primário de 2011 ¿ de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) ¿ e os investimentos, a dívida pública em relação ao PIB vai cair para níveis pré-crise no fim de 2011: um pouco abaixo de 41% do PIB.

Mantega, ao ser perguntado sobre o próximo governo por um jornalista do ¿Wall Street Journal¿, disse que há muito pouca diferença entre o que a oposição pensa sobre economia e o que o governo vem fazendo.

Para o ministro, nenhum candidato oposicionista teria sucesso defendendo mudanças significativas na economia.

Sobre estímulo, Meirelles avisa: desacelerar, não frear Meirelles e Mantega ¿ que nem sempre estão sintonizados ¿ concordaram em outro ponto: o Brasil superou a crise, e o objetivo agora é retirar os estímulos. Mantega confirmou o fim da redução do IPI para eletrodomésticos de linha branca e automóveis. Já Meirelles falou na retirada de estímulos monetários: redução dos chamados empréstimos de reservas e o direcionamento do dinheiro dos compulsórios para setores da economia.

¿ Claramente, hoje a economia brasileira volta à normalidade.

E não são necessários, evidentemente, mais estímulos anticrise ¿ disse Meirelles, ressaltando que a retirada tem de ser gradual. ¿ Uma coisa é você desacelerar.

Outra coisa é frear. Não está clara a necessidade de freio. O que está clara é a necessidade de desacelerar.

Já Mantega discordou de previsões do mercado sobre alta da taxa básica de juros.

¿ Os prognósticos vêm daqueles que tirarão proveito (de um aumento dos juros), que é o mercado financeiro.

Ele disse que o Comitê de Política Monetária (Copom) só elevaria os juros se houvesse necessidade, como ultrapassar a meta de inflação. E brincou: ¿ Não percebo rugas de preocupação na testa do Meirelles.

Ele parece estar tranquilo.

O ministro disse que vai anunciar em breve novas medidas para estimular as exportações brasileiras, como financiamento para compra de bens de capital. Mantega, que se reuniu ontem com ministros de Finanças do G-20, queixouse de que, com o fim da crise, a motivação dos países para regulamentar o sistema financeiro está baixando