Título: França anula dívida que Haiti tem com o país
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Fonte: O Globo, 16/01/2010, O Mundo, p. 28
Ministra da Economia apela ainda aos integrantes de Clube de Paris para fazerem o mesmo
PARIS. A ministra da Economia da França, Christine Lagarde, anunciou ontem a anulação da dívida que o Haiti tem com o país - 4 milhões. E aproveitou para lançar um apelo para que os países do Clube de Paris, como é chamado o grupo de credores públicos, risquem de suas contas os 54 milhões restantes que o Haiti deve a eles. O apelo da ministra francesa se estendeu à Venezuela e a Taiwan, que não fazem parte do clube, mas são grandes credores do país caribenho.
Sarkozy anuncia conferência internacional de reconstrução
Uma notícia que fez o haitiano Matieu Souverain, de 30 anos, um professor de Matemática da periferia parisiense, soltar uma gargalhada em meio à desgraça:
- Dívida?! O Haiti tem dívida com a França?! Não, não! É a França que tem uma enorme dívida conosco - rebateu, lembrando os anos de colonização francesa no Haiti e a miséria que restou depois.
Souverain citou logo um dado histórico, que o próprio jornal "Le Monde" relembrou ontem, num artigo sobre a história do país: em 1825, o rei Carlos X exigiu, em troca do reconhecimento da independência do Haiti, o pagamento de 150 milhões de francos ou de indenizações, "uma soma exorbitante, que ficou em 90 milhões, mas que fez despencar por muitos anos as finanças do país". O Haiti ficou pagando esta dívida até 1888.
Ontem, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou também que vai organizar uma conferência internacional para a reconstrução do Haiti, provavelmente em março. Angustiados, sem dormir por falta de informações sobre suas famílias, muitos haitianos que vivem na França esperam mais da ex-metrópole.
- Mandaram menos de cem pessoas para lá, enquanto os americanos mandaram 10 mil! O que tão pouca gente vai fazer lá? Ajudar os franceses no Haiti, certamente - queixou-se Souverain, que tem pai e dois irmãos em Porto Príncipe.
Há cerca de 1.500 franceses vivendo no Haiti, e ontem o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, disse que se busca ativamente o paradeiro de 60. Kouchner informou que o governo se esforça para evacuar os franceses do país.
- Procuramos os franceses?uns 60, que estavam em bairros extremamente atingidos pelo terremoto. Não estamos certos se estavam ou não lá na hora do terremoto.
A União Europeia (UE) anunciou 3 milhões de ajuda ao Haiti - o que é muito pouco para um bloco que tem 27 países, queixam-se muitos haitianos.
- É vergonhoso! Tantos países para dar isso! Há tantos outros que dão mais. Espero que vão, sobretudo a França, rapidamente corrigir isso - lamentou Mackendie Toupuissant, que trabalha na administração de um bairro da periferia de Paris e é parte de uma plataforma de associações de ajuda ao Haiti.
ONGs coletaram duas vezes mais dinheiro que UE
Estima-se que entre 70 mil a 90 mil haitianos vivam na França. Se os governos europeus decepcionam, não é o caso das ONGs, sobretudo as francesas. Ontem, somente as principais ONGs francesas anunciaram que conseguiram coletar um montante duas vezes maior que a UE: 6,5 milhões, em especial pela internet - principal veículo de apelo aos doadores. A Cruz Vermelha francesa, por exemplo, coletou 2,2 milhões; a Ação contra a Fome, outros 650 mil. Alguns, como Pierre Valeri, haitiano de 30 anos que trabalha na Fnac e não consegue ter notícias da família no Haiti, acreditam que talvez esta catástrofe seja a chance de o Haiti sair da miséria:
- Às vezes o mal traz o bem. Quem sabe isso tudo não vai atrair a atenção internacional das grandes potências e fazer o Haiti sair do ostracismo? - especulou.