Título: Cuba abre seu espaço aéreo aos EUA
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Fonte: O Globo, 16/01/2010, O Mundo, p. 28

Havana supera inimizade e permite que aviões americanos sobrevoem seu território para levar ajuda humanitária

Dezenas de aeronaves americanas que partem da base militar de Guantánamo eram obrigadas até então a contornar o território cubano, já que desde 1961 os dois países não têm relações diplomáticas - numa das últimas heranças da Guerra Fria. A unidade médica da base, conhecida pela controversa prisão, também está atendendo a sobreviventes da tragédia.

Fontes ligadas à Casa Branca afirmam que o acordo foi feito após dois pedidos oficiais. No primeiro, o comandante de Guantánamo, capitão Stephen Blaisdell, pediu autorização a um militar cubano, com quem mantém conversas regulares sobre o campo minado que separa a base americana do território soberano de Cuba. Somente quando diplomatas reforçaram o apelo junto ao ministério das Relações Exteriores de Cuba, alegando a necessidade de uma "importante missão humanitária", os EUA receberam sinal verde para sobrevoar a ilha.

Numa carta divulgada pela imprensa estatal, o presidente de Cuba, Raúl Castro, ofereceu condolências aos haitianos e afirmou que o país poderia contar com "toda a solidariedade do povo cubano". Irmão mais novo do líder revolucionário Fidel Castro, ele assumiu a presidência em 2008 devido ao agravamento do estado de saúde de Fidel, de 83 anos.

Surpresos com a medida, analistas especulam se a permissão especial dada aos americanos pode indicar um pequeno sinal de abertura da ideológica administração comunista cubana ou se é apenas um gesto pragmático para ajudar o vizinho Haiti.

Fidel Castro: "Haiti é vergonha de nossa época"

Desde que chegou à Casa Branca, o presidente Barack Obama vem tentando mudar a abordagem linha-dura imposta ao regime de Cuba por seu predecessor, George W. Bush.

No ano passado, Obama aliviou as restrições de viagens de cidadãos cubano-americanos à ilha e o controle das remessas de dinheiro que fazem aos parentes que ficaram em Cuba. Mas, apesar dos gestos de boa vontade, Washington garante que o embargo ao país comunista será mantido até que o governo de Havana implemente uma série de reformas democráticas.

Mesmo afastado da política, o lendário líder cubano Fidel Castro escreveu carta à imprensa estatal criticando as reações internacionais ao terremoto no Haiti. Segundo ele, apesar de comover as pessoas, a tragédia no empobrecido país vizinho não leva à reflexão sobre os reais motivos da pobreza haitiana. O texto, publicado no jornal "Granma", do Comitê Central do Partido Comunista, destaca o fato de o Haiti ter sido "o primeiro país onde 400 mil escravos africanos, traficados pelos europeus, se rebelaram contra 30 mil fazendeiros, donos de plantações de cana e café".

- Os haitianos levaram a cabo a primeira grande revolução social do hemisfério sul. O Haiti de hoje constitui uma vergonha de nossa época, de um mundo onde prevalecem a exploração e o roubo das riquezas da imensa maioria dos habitantes do planeta - escreveu Fidel.