Título: ONU está preocupada com sequestro de órfãos disfarçado como adoção
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 19/01/2010, O Mundo, p. 24

Casal de Niterói busca uma forma legal de adotar criança haitiana

Milhares de brasileiros vêm doando mantimentos, roupas e dinheiro, para socorrer as vítimas do terremoto no Haiti. Mas um casal de Niterói ¿ o pediatra Paulo Cesar Dias da Costa e sua mulher, Gilda ¿ escolheu uma outra forma de ajudar: quer adotar uma criança daquele país.

Segundo o Comitê dos Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas (ONU), antes daquela tragédia já havia cerca de 380 mil órfãos no país.

¿ Por isso estamos muito preocupados com a possibilidade de acontecerem sequestros disfarçados como adoções ¿ disse um porta-voz do comitê.

Paulo Cesar e Gilda, que já têm um casal de filhos adultos, ficaram sensibilizados ao ver imagens de crianças vagando sozinhas entre os destroços em Porto Príncipe. E ontem decidiram procurar a organização não-governamental Viva Rio, que tem representantes no Haiti, para saber o que precisam fazer para adotar uma delas legalmente.

¿ Não importa se será menino ou menina. Só achamos que seria melhor que fosse de até 2 anos, pois teria mais facilidade em aprender a nossa língua e a adaptação seria mais tranquila ¿ disse Gilda ao GLOBO.

Até o início da noite ela não tinha tido êxito no contato com aquela ONG ¿ ¿Devem estar sobrecarregados com o recolhimento de doações¿ ¿ mas disse que continuaria insistindo hoje. Esperançoso, o casal já escolheu inclusive os nomes: Bernard ou Camille.

¿ Queremos dar um destino, uma vida melhor e um sentido para uma criança que perdeu toda a família e todas as suas referências ¿ disse ela.

O governo da Holanda enviou um avião ontem a Porto Príncipe para buscar 109 órfãos haitianos que já estavam em processo de adoção. Cem delas, cujos documentos de saída dependiam apenas de uma medida burocrática, têm casais à sua espera. As outras nove crianças serão entregues temporariamente a famílias até que sejam encontrados pais permanentes para elas.

¿ Nós conhecemos essas crianças. Não saímos simplesmente apanhando crianças nas ruas para trazer para a Holanda ¿ disse Patrick Mikkelsen, porta-voz do Ministério de Justiça da Holanda.

Sua declaração tinha a ver com o alerta feito horas antes pelo Comitê dos Direitos da Criança, da ONU, às autoridades que coordenam os trabalhos de assistência aos haitianos: ¿Alarmado pelas recentes informações que dão conta de saques e violência, solicitamos medidas eficazes para proteger as crianças contra todas as formas de violência e exploração, incluindo a violência sexual e os sequestros encobertos pela adoção¿, dizia o comunicado.

O guia do Alto Comissariado para Refugiados diz que a adoção internacional não deve ocorrer em situações de instabilidade como guerras, calamidades e desastres naturais, por não ser possível verificar o histórico pessoal e familiar da criança.

Famílias americanas que estavam em processo de adoção de 300 órfãos pressionavam ontem as autoridades dos EUA para que facilitassem os trâmites para que eles pudessem ser encaminhados imediatamente aos seus novos pais.