Título: Busca por atendimento médico gera tumulto
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 19/01/2010, O Mundo, p. 24

Com escassez de equipamento e pessoal, hospitais reforçam esquema de segurança para voluntários trabalharem

Enviado especial

PORTO PRÍNCIPE. A demanda por serviços de saúde entre a população ferida do Haiti está trazendo os tumultos já registrados nos escombros de mercados e lojas do centro da cidade para os hospitais e postos de saúde que resistiram ao terremoto.

Em locais como o Hospital Infantil de Porto Príncipe ou o Hospital Comunitário Haitiano, nos bairros de Tabarre e Delmas, respectivamente, pacientes se espalham pelo chão e corredores.

Não há remédios ou equipamentos para todos. Mesmo as entidades multilaterais ou forças militares que estão montando Hospitais de Campanha no país ¿ como é o caso da própria ONU, de Brasil, Canadá e EUA ¿ possuem um esquema de segurança enorme para garantir o trabalho de seus profissionais.

Ontem, o Hospital de Campanha do Brasil abriu suas portas para a população e, mesmo sem qualquer anúncio, filas de haitianos esperavam horas para ter informações sobre como trazer parentes feridos. Era o caso de Mario Lusie, de 19 anos, que ficou em fila em frente à base brasileira por duas horas para saber se podia trazer familiares e amigos com fraturas.

¿ Não temos como transportar nossos feridos e não sabemos para onde ir ¿ disse ele. ¿ A maioria dos hospitais já não aceita mais casos alegando que não tem leitos.

Casos mais comuns são fraturas e traumatismo A entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Porto Príncipe, que tem uma unidade médica no bairro de Carrefour, classifica a situação na capital como dramática. A organização trouxe 100 profissionais de saúde para o país, além dos 800 que já trabalhavam lá. A própria demora na chegada dos hospitais militares ¿ e de um hospital inflável da própria entidade cujo transporte foi desviado para a República Dominicana por falta de autorização para pousar em Porto Príncipe ¿ piorou o quadro. Ferimentos e traumatismos relativamente fáceis de lidar nos primeiros momentos após o terremoto se agravaram, infeccionados, com dias sem atendimento médico. Os casos mais comuns são fraturas expostas, traumatismos cranianos e graves infecções que levam a amputações.

¿ Os hospitais que ainda estão de pé estão lotados. Apesar de ter havido um pequeno aumento na capacidade cirúrgica em Porto Príncipe, com a chegada de voluntários, ainda falta muito para que o número de pacientes que necessitam urgentemente de cirurgia seja absorvido.

Estamos priorizando o atendimento das pessoas com ferimentos graves, nas quais a intervenção cirúrgica pode salvar vidas ¿ disse Marie-Christine Ferir, uma das coordenadoras médicas de MSF. A entidade já fez três mil atendimentos médicos e 400 cirurgias na capital.

E há os episódios de desespero que deságuam em tumultos e violência. Estes tumultos obrigaram, por exemplo, a ONU a fechar seu hospital montado na capital, o que foi duramente criticado pelo médico Sanjay Gupta, principal analista de saúde da rede de TV dos EUA CNN. A casa do médico haitiano Claude Surena, no bairro de Petion-Ville, acabou virando uma pequena clínica após os vizinhos correrem para lá com todo tipo de ferimento.

Anteontem à noite, ele disse que gangues começaram a intimidar os feridos e os moradores da região.

¿ A segurança está se deteriorando ¿ disse ele.

O Hospital de Campo do Brasil atendeu ontem, em seu primeiro dia de funcionamento, 194 pessoas e 80% dos procedimentos se relacionaram a ortopedia (fraturas, concussões e traumatismos), segundo o major Roberto Turi, comandante do hospital.