Título: Nas ruas, a presença ostensiva dos EUA
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 20/01/2010, O Mundo, p. 29
Fortemente armados, soldados americanos ocupam palácio e já causam desgastes com militares de outros países
Enviado Especial
PORTO PRÍNCIPE. Numa ação que simboliza o total colapso do governo do Haiti, pelo menos 20 helicópteros americanos Black Hawk aterrissaram ontem pela manhã no que restou do suntuoso Palácio Nacional, a agora devastada sede da presidência do país. Tropas fortemente armadas ocuparam o edifício e deram início à montagem de uma base avançada, estocando centenas de caixas de equipamentos, água e comida sob um pesado esquema de segurança.
Com o presidente Barack Obama tentando melhorar seus índices de aprovação com uma agressiva estratégia de ajuda ao Haiti, a mídia americana acompanha com estardalhaço o dia-a-dia das equipes militares e de bombeiros dos EUA no país. Além da acusação de manter uma postura arrogante diante de colegas de outros exércitos, as ações dos militares americanos dividem os haitianos e causam estranhamento com militares de outros países.
Haitianos se dividem quanto à presença americana No Hospital Geral de Porto Príncipe, os militares eram observados com curiosidade por médicos, enfermeiros e pacientes.
Com metralhadoras nas costas, avançavam em fila para se instalar junto ao portão de acesso. Os cerca de cem soldados armados responsáveis pela segurança do complexo, da companhia Airbone 82, chegaram enfileirados e pediram para abrir caminho, mas esbarraram na dificuldade de comunicação com os haitianos, em sua maioria, fluentes em francês ou no dialeto creole.
Os americanos precisaram do auxílio de um funcionário local para traduzir, com a ajuda de um autofalante, as ordens para facilitar a passagem do contingente. Do lado de fora, a multidão era obrigada a se organizar em fila e aguardar a vez de entrar. O chefe da segurança hospitalar, Limar Angrand, comemorou a chegada dos soldados, alegando ter se tornado impossível tomar conta da instituição. Mas, enquanto funcionários defendiam o choque de ordem imposto pelos americanos, não faltaram pacientes e visitantes irritados com a presença inusitada no hospital.
Como as forças americanas não são submetidas ao comando das Nações Unidas, criou-se um desgaste entre as forças americanas e militares dos diversos países que atuam no Haiti ¿ que acusam os EUA de ¿ocuparem¿ o Haiti e tumultuar operações complexas, como o resgate de vítimas. O mal-estar foi agravado ainda pelo pedido do presidente do Haiti, René Préval, de entregar aos americanos o controle do aeroporto internacional.
O aumento da presença americana na capital agravou episódios de tensão.
Ontem, durante a megaoperação de resgate de 80 vítimas soterradas sob os escombros do Hotel Montana, que envolveu quase 150 homens de nove países, o comandante-geral do Exército chileno, general Ricardo Toro, desabafou com a equipe brasileira.
¿ Os americanos não dão mais palpites aqui e acabou-se a confusão. Quem manda aqui sou eu ¿ disse o chileno.
Depois das críticas feitas ao desempenho dos EUA pelo ministro francês Alain Joyandet ¿ que levaram o Palácio do Elyseu a negar publicamente qualquer atrito com os EUA ¿ ontem mais uma crítica velada foi feita à administração do aeroporto.
Um avião de carga da organização Médicos Sem Fronteiras transportando 12 toneladas de equipamento médico ¿ material cirúrgico e duas máquinas de diálise¿foi impedido de pousar por três vezes. Reclamações semelhantes foram ouvidas por médicos e voluntários de vários países, que acusavam o desembarque de novas tropas de atrasar ainda mais a chegada de ajuda humanitária.
O desconforto com as ações americanas existe mas, parece velado. O general brasileiro Floriano Peixoto, comandantegeral da Minustah, nega que a postura de ajudar sem se submeter às ordens de outras nações seja um ponto de fricção.
Mas conversas com qualquer comando militar de países que estão agindo em Porto Príncipe deixam claro o problema.
¿ Os americanos não estão no Haiti mas agem com a presunção de que conhecem muito o país ¿ diz um oficial brasileiro, que pede para não ser identificado. ¿ Pedimos a eles, por exemplo, que não realizem operações humanitárias jogando comida de helicópteros porque isso só cria violência e estresse entre a população de desabrigados. A maneira correta é organizar distribuições por terra com esquema de segurança, usando mulheres para distribuir os alimentos porque, no Haiti, a figura feminina é respeitada como símbolo materno.
¿ A insistente tentativa das equipes dos EUA de funcionar como comando em todas as operações é extremamente desgastante.
Poucas missões ocorrem sem bate-bocas. E o que é pior: em operações de resgate de sobreviventes, eles insistem em assumir na hora da retirada da pessoa, para que a mídia possa flagrar o momento ¿ conta um militar do México.