Título: Vitória apertada leva direita ao poder no Chile
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 18/01/2010, O Mundo, p. 24

Piñera é eleito presidente do país com mais de 51% dos votos e Concertação deixa governo depois de 20 anos

SANTIAGO. Num dos resultados mais apertados dos últimos anos, o opositor Sebastián Piñera ganhou ontem as eleições presidenciais chilenas. Com 99,2% das urnas apuradas, o candidato da Coalizão pela Mudança, de direita, tinha 51,61% dos votos, contra 48,38% do ex-presidente Eduardo Frei, da Concertação de Michelle Bachelet - numa eleição que marca a volta da direita ao poder pela via democrática pela primeira vez em cinco décadas. O novo presidente do Chile tem o desafio de unir um país que 20 anos após a ditadura militar continua dividido.

Seguindo uma tradição chilena, Frei foi ao comando de Piñera dar os parabéns pela vitória.

- Um bom governo precisa também de uma boa oposição. Compartilhamos o amor pelo Chile - disse Piñera, com um relógio vermelho que se tornou um talismã em toda a sua campanha. - Nosso país precisa, mais do que nunca, de união diante dos grandes desafios que tem pela frente.

Bachelet telefonou para Piñera para felicitá-lo, destacando que foi uma eleição ordenada, sem que ninguém contestasse os resultados. Piñera convidou a presidente para um café da manhã em sua casa hoje. Por telefone, afirmou:

- Demos, mais uma vez, o exemplo de uma democracia sólida, madura, capaz de ter uma eleição, inclusive com alternância de governo, de forma pacífica e exemplar.

Popularidade de Bachelet não elegeu seu candidato

Foi uma eleição histórica sob vários aspectos. É a primeira sem a presença do ex-ditador Augusto Pinochet, morto em 2006; encerra um ciclo de 20 anos de governo da Concertação e marca uma alternância de poder - o que alguns analistas viam como um marco do fim da transição para a democracia.

Frei reconheceu rapidamente a derrota, com 60% das urnas apuradas, pegando de surpresa o comando de Piñera. Ao lado dos ex-presidentes Ricardo Lagos e Patricio Aylwin, Frei parabenizou o adversário e fez um chamado à união das "forças progressistas de esquerda" - num momento em que analistas alertam para o risco de fragmentação da coalizão formada por quatro partidos de esquerda.

- O Chile é um país muito melhor do que a Concertação recebeu em 1990 - disse. - Seremos os guardiães da liberdade e de todas as conquistas da Concertação.

A apuração começou às 16h, mas declarações de membros da Concertação ao longo do dia deixavam transparecer um certo temor pelo resultado. Ao votar, o ex-presidente Frei prometeu ser o líder de todos os chilenos, mas ao mesmo tempo pediu "tranquilidade e confiança". A própria senadora da Concertação Soledad Alvear, ex-ministra de Bachelet, Lagos e Frei, dizia, ao votar no Estádio Nacional:

- Com esse quarto governo, a Concertação fecha um ciclo: conseguiu inserir o Chile no cenário internacional, hoje temos comércio com grande parte do mundo; e conseguiu aplicar a política social. O que falta agora é um desenvolvimento mais solidário - disse ao GLOBO. - Faltam-lhe figuras novas. Juntar experiência com juventude.

Bachelet deixa o governo com uma aprovação de 81%, mas não conseguiu transmiti-la a seu candidato. Por toda a campanha, o empresário Sebastián Piñera esteve à frente nas pesquisas. Vencedor do primeiro turno com uma vantagem de 15 pontos percentuais sobre Frei, ele viu essa distância minguar nos últimos dias, o que chegou a dar um novo fôlego à campanha da Concertação.

Dono de uma fortuna de mais de US$1 bilhão, Piñera já foi senador. Durante toda a campanha foi acusado pelos adversários de conflito de interesses. Ele prometeu vender sua participação na companhia aérea LAN, passar a emissora de TV Chilevision a uma fundação e manter o popular time Colo-Colo. O ex-senador pela Renovação Nacional conseguiu atrair eleitores mais ao centro ao apresentar uma plataforma mais liberal e a promessa de manter os programas sociais de Bachelet.