Título: O início do fim da era Chávez?
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 17/01/2010, Economia, p. 27
Para analistas brasileiros, crise esgotará chavismo. Venezuelanos discordam e citam US$40 bi extras pós-desvalorização
BRASÍLIA. A situação delicada da Venezuela divide analistas quanto ao futuro político de Hugo Chávez. Enquanto no Brasil vê-se a crise como o início do fim da era Chávez, no país vizinho afirma-se que ele tem fôlego para se manter no poder. A seu favor pesam a ainda ampla popularidade e os US$40 bilhões em receitas com petróleo que devem engordar os cofres públicos após a desvalorização do bolívar.
Para analistas brasileiros, sem recursos para continuar comprando armas e aviões, com inflação acima de 26% ao ano, escassez de energia elétrica e água e em meio a uma briga com o varejo que pode levar ao desabastecimento, Chávez irá definhar.
- Estamos no começo do fim da era Chávez. É grave a situação de instabilidade política. Ele está afugentando capitais internacionais - diz o economista Celso Grisi, da Fundação Instituto de Administração (FIA).
O economista Francisco Pessoa, da LCA Consultores, concorda. Em sua opinião, se Chávez chegar a 2012, estará em frangalhos e sumirá do cenário político: nem o petróleo irá salvá-lo.
Para Geraldo Lesdat Cavagnari, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, o desabastecimento derrubaria a pretensão de Chávez de continuar no poder, porque "toca mais diretamente o povo". Seu temor é que, ao ver que pode cair, Chávez endureça o regime.
O vice-diretor do Instituto de Pesquisas Datanalises em Caracas, José Vicente León, lembra que, enquanto exageros políticos não abalaram a confiança do cidadão comum, os cortes de luz e água e a inflação entram na casa das pessoas e têm um custo político. Mas, ressalta, nem por isso se deve dizer que o chavismo está ameaçado:
- É uma avaliação simplista. A última pesquisa mostra a popularidade de Chávez em 49%. É muito para quem está há 11 anos no poder. Há riscos? Sempre. Mas não a curto prazo.
Especialista em política, a diretora do Centro de Paz da Universidade Católica da Venezuela, Ana Maria San Juan, não espera mudanças drásticas.
- Não vejo o fim do chavismo a curto prazo. A maior parte dos fatores que levaram Chávez no poder permanece - diz, lembrando que é preciso ver se a oposição conseguirá capitalizar a crise. - A proposta deles não pode ser só a queda de Chávez.
Para Virgílio Arraes, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB, o futuro da Venezuela dependerá do preço do petróleo:
- Pode-se dizer que naquele país há uma "petrodemocracia". (Eliane Oliveira e Vivian Oswald)