Título: Venezuela: nada além de petróleo
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 17/01/2010, Economia, p. 27

País enfrenta escassez de produtos, de leite a peças para automóveis

BRASÍLIA. Com a economia ancorada na exploração e no processamento do petróleo, cujas receitas despencaram com a crise internacional e abriram um rombo nas contas externas, a Venezuela transformou a escassez em palavra corriqueira. O racionamento de energia decretado na última terça-feira é apenas uma das economias forçadas a que os venezuelanos estão sendo submetidos. Desde novembro do ano passado, as pessoas tiveram de aprender a conviver com cortes de água. Faltam alimentos específicos a cada período, e é difícil achar diversos bens de consumo.

Uma forte estiagem responde pela maior parte da falta de água e luz, mas problemas de infraestrutura também pesam. Quem tem dinheiro ainda pode se dar ao luxo de comprar bombas e tanques para armazenar água, em meio a projeções oficiais de que em 120 dias a Venezuela pode estar diante de um "colapso elétrico nacional".

O racionamento foi alvo de protestos da população e levou à demissão de Ángel Rodríguez do Ministério da Energia - que, no fim da noite de anteontem, foi transferido para Alí Rodríguez. Este já representou a Venezuela na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e estava, até então, à frente da pasta de Finanças.

- A crise pode se aprofundar - alertou Ana Maria San Juan, professora da Universidade Católica da Venezuela. - A classe média tem sido a mais atingida pelos desafios da desvalorização e a crise de serviços públicos.

Para empresário, governo sacrifica a economia

Tentando contornar a crise, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, ainda anunciou na última sexta-feira um reajuste de 25% no salário mínimo. Esse aumento será dividido em duas vezes - 10% em março e 15% em setembro, para levar o salário mínimo a 1.200 bolívares.

Mas a população continua a sofrer com a escassez. É cada vez mais difícil encontrar peças para automóveis e outros bens de consumo. Os gêneros de primeira necessidade costumam estar nas prateleiras, mas já faltou leite, carne e café. Não se pode escolher a marca. Esta semana é a vez de o leite desnatado sumir das prateleiras.

No ano passado, o problema era ainda mais grave, devido à falta de divisas para importar. Além disso, a intervenção do Estado acaba dificultando a vida dos importadores. À escassez soma-se a brutal perda de poder aquisitivo, já que a taxa de inflação tem ultrapassado os 20% anuais, e já é a mais alta do continente.

A maxidesvalorização anunciada no último dia 8 - considerada por muitos especialistas e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) uma medida acertada - deve tornar o mercado de câmbio mais realista e atenuar esses entraves. Além disso, deve dobrar as receitas com petróleo e promover um alívio fiscal, permitindo novos gastos com programas sociais, as meninas dos olhos de Chávez.

Uma de suas armas para contornar os problemas econômicos do país é usar o Orçamento para bancar uma cesta básica barata. Para garantir os preços de bens essenciais nos mercados estatais - presentes nas áreas mais pobres -, o governo já avisou que pode importar alimentos diretamente.

Mas nada disso remove as barreiras ao desenvolvimento da Venezuela. O presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Caracas, Victor Maldonado, disse ao GLOBO que as medidas dos últimos dias são perversas e contraditórias: não se pode melhorar a indústria sem luz para produzir.

Maldonado alerta para uma queda de dois pontos percentuais do PIB em função da maxidesvalorização e do racionamento - que permanece nos locais que concentram 80% das fábricas, segundo a Conindustria (entidade que representa o setor). Em 2009, a economia encolheu 2,3%.

- As políticas do governo sacrificam a economia. Não há um compromisso com investimentos. A política fiscal prevê que o governo gaste infinitamente o dinheiro do país - afirmou Maldonado.

"Não há empresas socialistas sustentáveis"

Um dos problemas da Venezuela é comprar 76% do que consome no exterior. Chávez criticou recentemente o excesso de importações e pediu para que o governo trabalhasse em conjunto com os produtores de modo a incentivar o consumo de produtos nacionais.

Chávez afirmou recentemente que 95 milhões de pares de sapatos são importados em um ano, e que o país poderia produzir qualquer quantidade de componentes elétricos, roupas alimentos e medicamentos. Maldonado ironiza:

- Não há como se substituir importações na Venezuela, porque não há empresas socialistas sustentáveis.

Ainda assim, o governo inaugurou duas linhas 0800: uma para quem quiser apresentar projetos de produção de bens para exportação e outra, direta com os bancos Venezuela e Bicentenário, para que seus clientes forneçam às instituições essas informações.

Desde 11 de janeiro, quando foi publicado o decreto da desvalorização, o país tem duas taxas de câmbio. Saiu de 2,15 bolívares para 2,60 bolívares para setores como saúde e alimentos (desvalorização de 17,3%). Para artigos considerados supérfluos, a depreciação é de 50%, passando a 4,30 bolívares - o chamado dólar petroleiro. No mercado paralelo, a cotação está entre 6 e 7 bolívares.