Título: Em Minas, tragédia cotidiana
Autor: Bruno, Cássio; Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 09/01/2010, O País, p. 10

Falta de fiscalização é maior problema; 13 morreram em uma só colisão

BELO HORIZONTE e SÃO PAULO. Os números de 2008 frustraram os especialistas em transporte e trânsito de Minas Gerais, justamente por ser o primeiro ano da Lei Seca, com ampla divulgação na mídia. A expectativa era de que as novas normas reduzissem a violência principalmente nas cidades, território em que o álcool é um dos principais fatores de risco. Em vez de retração, houve aumento em vários casos.

¿ Havia poucos bafômetros e policiais para fazer a fiscalização. Além disso, não houve uma campanha nacional para chamar as pessoas a se engajarem.

As pessoas têm de ser tocadas (por campanhas) ¿ avaliou a coordenadora de um núcleo de humanização do trânsito na capital, Rosana Antunes.

Em 2008, a Companhia de Trânsito da PM, mais tarde transformada em batalhão, tinha quatro bafômetros para atestar o abuso do álcool em BH, número que passou para nove apenas no fim daquele ano. A cidade tem 2,4 milhões de habitantes e frota que supera 1,1 milhão.

¿ Fiscalização estamos fazendo, dentro de nossas possibilidades. Mas muita gente insiste em beber, não muda o comportamento ¿ lamenta o tenentecoronel Roberto Lemos, comandante do batalhão.

Ontem, em um único acidente, 13 pessoas morreram na BR-365, a 30 quilômetros da cidade de Patos de Minas (MG).

Uma van com 17 pessoas bateu de frente com uma carreta carregada de fumo.

A violência no trânsito de Minas Gerais mata, por ano, mais gente que os atentados ao World Trade Center, em Nova York. Foram 3.682 vítimas de acidentes em 2008, quantidade que praticamente não variou em relação ao ano anterior (3.723). É como se as torres gêmeas ¿ que desabaram em 11 de setembro de 2001, tirando a vida de cerca 2,7 mil pessoas ¿ caíssem no estado e ainda sobrassem quase mil óbitos.

Em São Paulo, estado com maior número de acidentes em 2008, um estudo mostra que uma em cada 17 infrações que se comete na cidade não resulta em multa para o motorista. A falta de fiscalização reforça o quadro caótico: um motorista é capaz de estourar os 20 pontos permitidos na carta de habilitação apenas em oito minutos, considerando o uso de celular enquanto dirige, estacionamento sobre faixa de pedestres, crianças soltas no carro, falta de seta ao mudar de faixa na pista, entre outras irregularidades.

¿ O governo está brincando de fiscalizar, e os motoristas estão brincando de respeitar o Código Brasileiro de Trânsito ¿ analisa Horácio Augusto Figueira, mestre em engenharia de transporte da Universidade de São Paulo (USP) e responsável pelo estudo.

¿ A fiscalização é incipiente, enquanto isso o país vive uma guerra civil não declarada, com milhares de pessoas morrendo ¿ diz ele.