Título: Lembra a América Latina dos anos 70'
Autor:
Fonte: O Globo, 07/01/2010, Economia, p. 19
Para o diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Langoni, a interferência da presidente argentina na economia lembra a América Latina dos anos 1970, mas deixa clara a separação da América do Sul em dois blocos.
Felipe Frisch
Qual é o impacto do pedido de Cristina Kirchner (para que o presidente do Banco Central renuncie) na imagem do país?
CARLOS LANGONI: É mais um grande retrocesso na política monetária do país. O conceito de Banco Central (BC) independente é um dos grandes avanços das sociedades democráticas modernas. O euro só foi possível com a criação simultânea de um BC europeu independente.
E nos investimentos no país?
LANGONI: É péssimo. A Argentina é um caso de manejo macroeconômico muito pouco eficiente. A Argentina optou pela moratória unilateral, enquanto o Brasil foi negociar no mercado e hoje é credor internacional. Até hoje, isso explica os baixos investimentos estrangeiros e em geral lá. Depois, veio o congelamento de tarifas públicas, que levou a apagões de energia e à falta de investimento em telefonia.
O que teria levado o governo argentino a essa decisão?
LANGONI: A Argentina está caminhando para uma situação de inflação alta e investimento baixíssimo. Imagino que o presidente do BC esteja buscando políticas monetárias mais restritivas, que tentem reduzir a inflação, e isso deve estar incomodando o governo, que manipula preços. A inflação lá deve atingir 12%, o dobro da divulgada oficialmente. Um BC independente deve incomodar o governo.
Qual é o impacto para o Brasil?
LANGONI: Só aumenta a atratividade do Brasil. Tanto que o país está saindo fortalecido da crise, e a Argentina, enfraquecida. Hoje, há uma grande separação entre os países: de um lado, Brasil, Chile, Peru e Colômbia, que fazem uma arquitetura macroeconômica consistente, e, do outro, os que praticam uma política macroeconômica inconsistente, heterodoxa, como Venezuela, Bolívia e Equador. A Argentina não está numa situação tão desastrosa, mas flerta com medidas exóticas, como câmbio controlado, controles pesados de exportações, desestimulando investimentos especialmente no setor de alimentos, sequestrou a poupança e estatizou os fundos de pensão há pouco tempo. Lembra a América Latina dos anos 70. Por isso, deve crescer apenas 1% este ano, mesmo com a recuperação mundial. Junto com ela está a Venezuela, que deve encolher 3,5%.