Título: Nova manobra de Cristina K
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Fonte: O Globo, 07/01/2010, Economia, p. 19

Governo argentino pede saída do presidente do BC. Analistas veem crise institucional e dano ao país

Do La Nación/GDA*

AArgentina voltou a ser sacudida por uma crise institucional. O governo de Cristina Kirchner pediu ontem a renúncia do presidente do Banco Central da República Argentina (BCRA), Martín Redrado, porque este se recusou a liberar o uso de US$6,6 bilhões das reservas internacionais para o pagamento de dívidas. Representantes da oposição e pessoas próximas a Redrado disseram que ele não pensa em deixar o cargo e que ficará até setembro, quando termina seu mandato. Segundo essas fontes, ele disse ainda acreditar não ter feito nada que justificasse uma renúncia. Como o BCRA é autônomo, Redrado não pode ser simplesmente demitido. O governo chegou a afirmar que Redrado seria substituído por Mario Blejer, que já ocupou o cargo, mas este negou ter aceitado o convite.

O chefe de gabinete de Cristina, Aníbal Fernández, afirmou que Redrado estaria "descumprindo seus deveres de funcionário" - o que abriria uma brecha legal para que o Executivo o tirasse do BCRA - e disse que o governo pensa em recorrer à Justiça para usar parte das reservas.

- Não vou remover ninguém. Mas se você diz que não e eu digo que sim, vamos ver o que diz a Justiça - afirmou Fernández, que depois tentou contemporizar. - Não tenho dúvida que isso vai se resolver da melhor maneira porque (Redrado) é uma pessoa inteligente e um homem de bem.

O líder do bloco kirchnerista no Senado, Miguel Ángel Pichetto, disse que "é preciso perguntar quem tem mais autoridade na Argentina, se o titular do Banco Central ou a presidente, eleita democraticamente pelo povo". Pichetto, que classificou a atitude de Redrado de desestabilizadora, disse ainda que ele "não está de acordo com a política econômica do governo, deveria renunciar".

O governo recebeu o apoio da Associação de Bancos Privados de Capital Argentino (Adeba), que se manifestou "em defesa da institucioalidade". Em nota, a Adeba afirmou "acreditar firmemente que o presidente do BCRA deveria contribuir, com sua renúncia, para preservar a estabilidade do sistema pela qual tanto trabalhou".

Oposição manifesta apoio a Redrado

Para especialistas, a nova crise pode prejudicar ainda mais a imagem externa da Argentina. Sergio Berensztein, analista da Poliarquía Consultores, vê um possível aprofundamento da insegurança jurídica do país. Ele lembrou ao site Perfil.com que, pelas normas que regem o BCRA, o governo não pode usar as reservas. "O que está em jogo é a ordem jurídico-institucional".

- Essa crise é séria - disse à Bloomberg News Claudio Loser, ex-diretor de Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI). - O fato de Cristina querer dar ordens ao Banco Central cria dúvidas sobre se resta alguma instituição na Argentina.

O jornal "La Nación" defendeu, em editorial, a independência do BC argentino. Em seu site, ainda publicou um artigo do economista José Luis Espert, sob o título "King Kong Kirchner", criticando os ataques de Cristina às instituições do país e lembrando um precedente perigoso: em 2001, o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, conseguiu derrubar o presidente do BCRA. O que se seguiu foi o caos econômico e político que levou ao calote da Argentina.

O chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri - da coalizão PRO, de oposição aos Kirchner -, pediu ontem que a presidente respeite a autonomia do BCRA:

- Que (Cristina) não nos leve a uma crise institucional como ocorreu com o conflito com o campo - disse Macri, referindo-se ao protesto de grandes fazendeiros, que gerou uma crise de desabastecimento em 2008.

Ele ainda classificou de ilegal o decreto de necessidade e urgência (DNU) pelo qual, há três semanas, Cristina Kirchner pediu a transferência de US$6,6 bilhões das reservas para as contas do governo, a fim de honrar os compromissos da dívida deste ano. O DNU - impugnado pelo Congresso e pela Suprema Corte, após ação de inconstitucionalidade da província de San Luis - abriu a crise com Redrado.

O líder do PRO na Câmara, Federico Pinedo, também manifestou seu apoio ao presidente do BCRA:

- Redrado não deve renunciar nem submeter-se aos desejos da presidente, porque seu dever é ser independente do Executivo para cuidar do dinheiro dos argentinos.

O Merval, principal índice da Bolsa de Buenos Aires, recuou ontem 1,64%. O dólar avançou 0,26%, para 3,83 pesos. Já o risco-país subiu 1,57%, para 644 pontos centesimais.

Blejer nega ter aceitado convite

A substituição de Redrado por Mario Blejer, posteriormente negada por este, chegou a ser confirmada pelo chefe de gabinete, Aníbal Fernández, e pelo ministro da Economia, Amado Boudou - para quem Blejer trabalha hoje como assessor informal. Fontes disseram ao "La Nación" que Blejer tem "grande respeito" pela autonomia do BCRA, o que o impediria de aceitar o convite.

Mais cedo, Boudou chegou a afirmar que havia conversado com Blejer, que se encontra no exterior, e que este havia concordado em assumir o BCRA. Alguns dias antes, Blejer havia manifestado seu apoio à decisão do governo de usar as reservas para pagamento da dívida.

- O que sei é que o doutor Redrado, em várias oportunidades, disse à presidente que podia contar com sua renúncia. O que o chefe de gabinete fez foi aceitar essa renúncia. Martín Redrado tem uma trajetória, cumpriu tarefas no BCRA, e hoje terminou sua carreira - disse Boudou.

Douglas Smith, analista da Standard Charter em Nova York, disse à Bloomberg News que essa podia ser "a última gota" para Redrado, que desde setembro de 2004 tinha uma boa convivência com o governo Kirchner:

- Ainda há muito risco na Argentina. A mudança no BC nos lembra que as coisas não são perfeitas lá.

A crise com o BCRA é mais um elemento a abalar a confiança na Argentina, que, desde o calote da dívida externa, em 2001, enfrenta dificuldades para reconstruir sua credibilidade. Em janeiro de 2007, o governo Néstor Kirchner interveio no Indec (o IBGE argentino) e afastou funcionários, por divergências sobre a metodologia para medir a inflação. Desde então, os índices oficiais estão sempre abaixo daqueles de analistas e consultores.

Outro atrito é a relação com o setor agrícola. Em 2008, os produtores rurais fizeram várias greves contra tarifas de exportação aplicadas pelo governo para garantir o abastecimento interno e conter a pressão inflacionária dos alimentos. O vice-presidente, Julio Cobos, ficou ao lado dos ruralistas, afastando-se dos Kirchner.

(*) O "La Nación" faz parte do Grupo Diarios América (GDA). Com Bloomberg News e agências internacionais.