Título: Um tombo histórico na indústria
Autor: Melo, Liana
Fonte: O Globo, 03/02/2010, Economia, p. 19

A CONTA DA CRISE

Em 2009, queda na produção foi de 7,4%, a maior desde 90, mas recuperação já começou

Oano de 2009 fechou com uma queda na produção industrial de 7,4%, maior retração desde 1990. Ainda que o resultado remeta a um dos piores desempenhos das duas últimas décadas - quando o país registrou uma desaceleração industrial de 8,9% - o resultado não surpreendeu o mercado. E também não está sendo visto como um sinal de inversão da tendência de recuperação dos indicadores. Tanto assim, que os analistas não estão alterando suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) de 2009 e 2010. Nos dois últimos trimestres, todos os setores da indústria reagiram. Há consenso entre analistas de bancos e economistas de que a queda é resultado de uma acomodação frente à suspensão gradual dos incentivos fiscais dados à indústria e que começaram a ser retirados no fim do ano passado.

É a queda registrada de 4,9% na produção de bens duráveis em dezembro contra novembro que sinaliza, na opinião do economista Elson Teles, da Concórdia Corretora, o impacto que causou a retirada gradual dos incentivos fiscais no resultado geral da indústria em 2009. No ano passado, a produção de bens duráveis caiu 6,4% e a de máquinas e equipamentos despencou 17,4%:

- O investimento está se recuperando, mas ainda não recompensa o pico de produção registrado no período pré-crise, que foi brutal para a indústria.

A desaceleração da produção industrial de 2009 só não foi pior do que o desempenho registrado no ano em que o então presidente Fernando Collor de Mello confiscou a poupança e, com essa decisão, desestabilizou a economia nacional. Apesar de todos os estímulos dados à indústria pelo governo ao adotar uma política anticíclica voltada para o mercado interno, o país ainda não recuperou os patamares de produção industrial do período pré-crise.

A coordenadora da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), que foi divulgada ontem pelo IBGE, Isabella Nunes, confirma que a retração com a crise global foi geral em diferentes países do mundo, mas que o Brasil está convivendo com um movimento de recuperação, com uma retomada consistente, com qualidade e a retomada dos investimentos.

Projeção para o PIB continua de retração

O economista Felipe França, do Banco ABC, concorda que o resultado da indústria em 2009 e, especialmente, o desempenho registrado no mês de dezembro (-0,3% contra novembro) não alteraram o ritmo de recuperação da economia brasileira, iniciado no segundo trimestre do ano passado. Apenas no primeiro trimestre de 2009 é que a indústria fechou em queda de 6,5%. Nos três trimestres seguintes, só houve resultados positivos: 4,2%, 4,7% e 3,6%, respectivamente.

Os sinais claros de recuperação, diz França, estão sendo emitidos pela categoria de bens de capital, que liderou o crescimento no quarto trimestre do ano passado. O último trimestre fechou com os bens de capital crescendo 13,3% contra o período imediatamente anterior.

- A volta dos investimentos indica confiança dos empresários, o que demonstra que estamos numa trajetória de recuperação mais lenta, porém sustentável - reforça Felipe França.

Tanto o Banco Santander quanto a Concórdia Corretora estão apostando que a indústria em 2010 vai recuperar a queda de 2009. Ambas as instituições estão projetando crescimento para a indústria em 2010 de 7% e de 8% a 9%, respectivamente.

- Apesar de 2009 ter fechado com um resultado negativo, os sinais de recuperação são claros. Tanto assim que estamos projetando um crescimento de 7% para indústria este ano - antecipa Luíza Rodrigues, economista do Banco Santander.

A Concórdia Corretora, por sua vez, está apostando num crescimento industrial ainda maior para 2010, variando de 8% a 9%.

Como o resultado da produção industrial em 2009 não surpreendeu, as projeções para o PIB não estão sendo alteradas. O economista Bernardo Wjunischi, da Tendências Consultoria, por exemplo, confirma a projeção da instituição para 2009 e 2010: -0,25% e 5,2%, respectivamente.