Título: Sem água, sem terra
Autor: Vaz, Lúcio
Fonte: Correio Braziliense, 07/06/2009, Política, p. 2
Para poder plantar, pequenos agricultores cobram ajuda, principalmente obras de infraestrutura
Abílio de Araújo, de 45 anos, trabalha nas terras dos outros para aumentar a renda Santa Cruz (PE) ¿ Enquanto as obras estruturantes do PAC não chegam, os sertanejos vão se virando como podem. Eles reclamam da falta de trabalho, de água para beber e irrigar as plantações, de terra para plantar. Também pedem estradas transitáveis. Em Santa Cruz, na Chapada do Araripe, distante 330km de Recife, o agricultor Gildenor Pereira de Souza, 59 anos, recebe água de carros-pipas enviados pela prefeitura e pelo Exército. Ele conta com uma cisterna. É uma das 226 mil já construídas pelo governo federal no semiárido brasileiro. Mas a cisterna não resolveu o seu problema. ¿A chuva foi pouca. De molhação foi boa, mas pra beber foi pouca¿, comenta. E fala do que a região mais precisa: ¿O nosso sertão é castigado demais com a estiagem¿. A Adutora do Oeste está chegando à sede do município, para abastecer a população, mas Gildenor reclama que não há projetos de irrigação na região. Sete dos 10 filhos trabalham com ele numa área de seis hectares a 20km da cidade.
Luzia de Souza, de 20 anos, filha de Gildenor, ajuda na renda familiar trabalhando na roça como diarista. Ela é casada e tem um filho. Questionada sobre a renda mensal. ¿Não dá nem R$ 150 por mês¿, responde. Perguntada se é para cada um. E ela: ¿Pra todos¿. A diária vale R$ 15. ¿Tem mês que tem duas, três, tem mês que não tem nenhuma.¿ Ela colocou seu nome no Bolsa Família, mas até agora não conseguiu o benefício. ¿Já me inscrevi duas vezes. Eles mandam eu ligar para Brasília. Eu ligo, mas dizem que o cadastro não chegou¿, lamenta.
Em Itainópolis (PI), o presidente da Câmara de Vereadores, Raimundo Araújo (PSB), afirma que a única ajuda que chegou após a criação da mesorregião foi a construção de cisternas. ¿Melhorou, mas está faltando aceleração. A gente precisa de muitas coisas, barragens, um matadouro, estradas.¿ Ele também teme perder as obras do Luz para Todos, outro programa muito efetivos nos rincões mais distantes do país. ¿Essa é a principal obra que esperamos, mas o programa vai terminar em 2010. Aqui, estamos a zero¿, lamenta o vereador.
Pagando renda Com pouca terra para plantar e manter a família, o agricultor Abílio de Araújo, 45 anos, trabalha de meia no povoado Paulista, interior de Itainópolis. Parte dos moradores é descendente de quilombolas. Ele é proprietário de ¿três tarefas¿ (cerca de um hectare), onde planta milho e feijão. Para aumentar a renda e sustentar os dois filhos, conseguiu mais um pedaço de terra com fazendeiros. ¿Eu planto pagando renda em mais quatro tarefas¿, relata o agricultor. Na safra, colhe 40 sacos de milho e cinco de feijão. Renderia cerca de R$ 900, mas sobram só R$ 600 porque tem que pagar renda para o dono da maior parte das terras.
Outra dificuldade é o abastecimento de água potável. Ele traz a água em galões no lombo de num burrico ¿lá do passo¿(aponta para um local distante). Questionado se alguém já prometeu água, responde: ¿Já prometeram na véspera de política (eleições), depois esquecem¿. Mas é agradecido pelos R$ 102 que recebe do Bolsa Família. Ajuda a pagar o armazém, onde gasta cerca de R$ 150 por mês.