Título: Há ainda um estranhamento no PT com Dilma
Autor: Lima, Maria; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 14/02/2010, O País, p. 4
Novo presidente do partido, Dutra diz que preocupação da cúpula é conseguir que ministra envolva os militantes Maria e Gerson Camarotti
BRASÍLIA. O que está sendo preparado para ser uma festa apoteótica de lançamento da pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência da República tem sido também motivo de desavenças em torno dos tradicionais contenciosos do partido entre a própria candidata, o governo e a cúpula do PT. A polêmica deve se acirrar durante os debates preliminares do 4º Congresso Nacional do PT, entre os próximos dias 18 e 20, que vai analisar e aprovar o documento ¿A grande transformação¿, com propostas para um eventual governo de Dilma.
Além disso, há no PT grande expectativa em relação à recepção que a militância dará a Dilma. Para José Eduardo Dutra, que tomará posse como presidente nacional do partido, será um bom teste, mesmo considerando o risco de o presidente Lula, que também discursará, ofuscar a candidata.
¿ Há ainda um estranhamento no partido com Dilma.
Essa é a grande preocupação da cúpula do PT: conseguir que a candidata, de fato, envolva os militantes. Por isso, em seu discurso, Dilma deve fazer um apelo para a militância, estabelecer uma espécie de compromisso mútuo ¿ disse Dutra.
Petistas preocupados com texto muito à esquerda Dilma vai interferir diretamente na versão final do texto ¿A grande transformação¿.
A preocupação é que uma visão muito esquerdista do papel do Estado, como prevaleceu no texto original preparado pelo assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, assuste o mercado e os eleitores das classes média e alta.
Além da ideia de uma presença mais forte do Estado na economia, com fortalecimento de estatais e de bancos públicos, previstos no texto de Garcia, também são motivo de divergências entre as várias tendências internas do PT propostas de aprofundamento da reforma agrária com ênfase na agricultura familiar, a participação da sociedade no controle de conteúdo dos meios de comunicação e até a criação de uma comissão de política externa para atuar paralelamente ao Itamaraty.
Diante da repercussão negativa ao texto esquerdista de Marco Aurélio, o novo presidente do PT, da corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB), diz que essas diretrizes devem ser modificadas, e depois ainda serão discutidas com os partidos da coligação. Os dirigentes do PT, envolvidos na candidatura Dilma, vão para o congresso com essa tarefa.
¿ A ministra Dilma é quem vai decidir o que incluir ou não em seu programa de governo.
Essas teses, que já serão alteradas no Congresso do PT, são diretrizes do partido que serão apresentadas a ela, que aceita ou não ¿ explicou o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP).
Dutra nega que o PT vá propor, no documento, algo que venha a romper com princípios gerais da ¿Carta aos brasileiros¿, um compromisso do presidente Lula em sua primeira eleição, em 2002, para acalmar o mercado.
¿ Não há componente de esquerdismo.
Propomos o fortalecimento das estatais, o que já estamos fazendo desde o início.
O que me espanta é a reação da oposição. Dizem que há componentes da China lá, ou que estamos fazendo um programa para a Venezuela. Será que a oposição é contra o fortalecimento da Petrobras? ¿ diz Dutra.
Mas a desconfiança vem também de dentro do partido. A corrente Mensagem, a segunda força interna do PT, deve bater de frente contra algumas das teses em discussão. Um de seus representantes, o deputado Antonio Carlos Biscaia (RJ), disse que a ideia da criação da comissão de política externa, por exemplo, é inconstitucional, e que José Eduardo Cardozo (SP) pode contestá-la.
¿ Há consenso sobre o lançamento da Dilma como candidata.
Algumas resoluções podem ser aprovadas sem discussão, e aí fica como uma imposição do grupo majoritário. O Congresso só vai homologar, com votação simbólica ¿ prevê Biscaia. ¿ Qual a natureza jurídica dessas coisas muito impróprias do Marco Aurélio Garcia, como a comissão de política externa? Reforma agrária é um dos pontos da carta petista O novo líder do PT na Câmara, Fernando Ferro (PE), confirma que a intenção do Congresso é lançar uma carta retomando os princípios e as bandeiras de esquerda do PT, com pontos em que considera que o atual governo não avançou. Ele cita a reforma agrária, com mais recursos para a agricultura familiar e não para o agronegócio.
Mas a grande expectativa entre os petistas é com o momento principal do Congresso: o lançamento da pré-candidatura de Dilma e seu primeiro grande discurso para a militância. Para uma plateia de cerca de 1.600 pessoas ¿ 1.300 filiados e 300 convidados ¿ o desafio da ministra é empolgar a militância, se apresentando como a sucessora de Lula, e dar seu primeiro recado ao Brasil já assumindo sua candidatura.
O discurso de Dilma terá forte componente emocional e de marketing. Foi redigido pelo marqueteiro João Santana, responsável pela campanha, está sendo analisado por Marco Aurélio Garcia e passará pelo crivo da ministra e de Lula.
A previsão é que Lula discurse antes de Dilma, no sábado, passando o bastão simbolicamente para ela. O lançamento oficial da candidatura, porém, será de 10 a 30 de junho, período estabelecido pela legislação eleitoral para a realização das convenções partidárias.