Título: A campanha de Dilma será pragmática
Autor: Camarotti, Gerson; Otavio, Chico
Fonte: O Globo, 17/02/2010, O País, p. 3

Novo presidente do PT diz que alianças serão importantes para ganhar eleição e governar

Na semana em que assume o comando nacional do PT, o ex-senador e ex-presidente da Petrobras José Eduardo Dutra admite que, depois de 30 anos, o partido transformou-se numa legenda pragmática. Até hoje, poucos admitem publicamente essa mudança de comportamento. "O PT é um partido pragmático! Qualquer partido que queira governar, tem que ser pragmático", afirma Dutra. Nesta entrevista ao GLOBO, concedida antes do mal-estar com o governador Sérgio Cabral, ele diz que na campanha de Dilma Rousseff também prevalecerá o pragmatismo.

Maria Lima e Gerson Camarotti

Qual o perfil do novo PT, depois de 30 anos de criação e ao final do governo Lula?

JOSÉ EDUARDO DUTRA: O PT tem tido uma evolução natural desde sua fundação. Quando foi fundado sofreu ataques, preconceitos da esquerda e da direita. Os partidos da esquerda tradicional, abrigados no PMDB, diziam que o PT dividiria a oposição. O PT tinha uma visão um pouco exclusivista. Por questão de sobrevivência, a gente não aceitava aliança. Em 2002, chegamos à Presidência. Um partido que chega a administrar amplos espaços de poder tem que entender e se adaptar à realidade. Não pode perder seus princípios, mas também não pode ficar amarrado no principismo.

Ou seja, o PT hoje é um partido pragmático.

DUTRA: O PT é um partido pragmático! Qualquer partido que queira governar tem que ser pragmático.

E na campanha da Dilma também vai prevalecer o pragmatismo?

DUTRA: Também. Quando defendemos alianças com partidos de centro, porque é importante para ganhar a eleição e governar, vamos adotar a dose necessária de pragmatismo. Porque nós queremos continuar governando o Brasil. Em oito anos, implantamos um projeto progressista. Se é mais à esquerda ou à direita, essa é uma discussão quase bizantina.

No Congresso do PT deve ser aprovada uma carta de intenções com diretrizes mais à esquerda do governo, que dificilmente seriam aceitas num programa de governo de Dilma com o PMDB. É para satisfazer o partido internamente?

DUTRA: Nós vamos aprovar diretrizes programáticas de governo, que é um projeto do PT. Essas diretrizes serão apresentadas aos partidos da aliança e à sociedade. Não é o programa da candidata, que será do PT e aliados.

Mas o PMDB já reagiu ao esboço inicial do documento.

DUTRA: Cabe ao PMDB fazer as propostas que achar corretas. Não vai ser um programa do PT, do PMDB ou do PDT. Uma convergência vai nortear o governo da Dilma. Não há nada de esquerdismos. Estamos reafirmando (no documento) o que a crise ensinou, contra essa coisa de achar que o "Deus mercado" tem a solução para tudo.

O documento "A Grande Transformação", que será aprovado no Congresso do PT, é visto como uma marcha rumo ao socialismo bolivariano. Isso não pode assustar o eleitor?

DUTRA: Queria saber de onde a oposição tirou isso. Quando a gente fala que eles vão privatizar a Petrobras, dizem que estamos fazendo terrorismo. Mas se a gente fala que vai fortalecer a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa, não estamos propondo estatizar mais nada. Não significa quebra de contrato nenhum. Se dizemos que vamos fortalecer e eles são contra, significa que querem enfraquecer.

O fato de o Marco Aurélio Garcia ser o coordenador do programa da Dilma, sua proximidade com os presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia)... Não é isso que leva a essa interpretação?

DUTRA: O fato de nós não demonizarmos Chávez, Evo e outros não significa que concordemos com eles. Nossa politica é diferente. Criticamos, mas respeitamos a autonomia dos países.

O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) disse que o PT trata aliados como chiqueiro de ovelhas.

DUTRA: Respeito o Ciro, que tem condições de pleitear disputar qualquer cargo. Mas não concordo com as críticas. O PT está discutindo cenários nos estados onde não tem candidatos a governador. Mas não se pode fugir da realidade: o PT é o maior partido da esquerda. O PT construiu uma legitimidade por ser o partido do presidente, mas não usamos isso para ser cabeça de chapa nos estados. Para nossa estratégia de ganhar as eleições, de fazer a comparação entre os dois projetos, o melhor é ter um candidato só.

E se Ciro insistir em concorrer?

DUTRA: Se o PSB lançar candidato, Ciro não será tratado como candidato de oposição. Queremos que saia em defesa do governo. O que Ciro não pode é nos censurar, como não censuramos as opiniões dele.

Ciro diz que a aliança entre PT e PMDB é um roçado de escândalos...

DUTRA: Olha, tenho certeza de que são os mesmos critérios que nortearam a aliança que sustenta o governo do Ceará (do irmão de Ciro, Cid Gomes, do PSB) com o PMDB.

Dilma ainda comete gafe nos palanques, troca nomes...

DUTRA: Franco Montoro era famoso por trocar nomes. E foi senador, governador de São Paulo, um dos quadros políticos mais importantes do Brasil. Isso pode acabar fazendo parte do folclore da campanha de Dilma.

Ela tem consolidada a postura de boa gerente, mas pesquisas dizem que a ministra não tem linguagem popular, o discurso fácil de Lula.

DUTRA: Querem comparar Dilma com Lula. Qualquer que seja o candidato, ao se estabelecer a comparação com Lula, vai sair em desvantagem. Dilma não tem o traquejo de quem disputou várias eleições. Isso será compensado, porque a falta de carisma também se aplica ao adversário. Então, poderá facilitar o debate. Talvez atraia até mais o voto consciente.

A oposição conseguiu carimbar a pecha de mentirosa em Dilma?

DUTRA: Conseguiu não, tentou.

Citam episódios em que ela teria mentido: o encontro com a ex-secretária da Receita Lina Vieira, o dossiê dos cartões corporativos, o falso currículo. Como superar essa mancha?

DUTRA: Não tem essa mancha. A oposição tentou criar factóides não comprovados. Os adjetivos não encontram respaldo na realidade. A insuficiência programática é que faz a oposição ficar como biruta de aeroporto, a cada hora atirando para um lado.

O ex-ministro José Dirceu é um inconveniente útil?

DUTRA: Zé Dirceu vai entrar no Diretório Nacional e provavelmente terá uma função na campanha. O fato é que setores da imprensa acabam superdimensionando o papel que ele teria no governo. Dirceu é militante histórico, conhece Deus e o mundo na política brasileira, é procurado por aliados. Mas esses problemas nos estados não vão passar por uma só pessoa.

Não pega mal ter José Dirceu no palanque de Dilma?

DUTRA: Tem dirigente que chegou agora e não conhece ninguém no partido. Zé Dirceu conhece todo mundo. Não há censura no PT. Ele é dirigente e não será um militante clandestino. A clandestinidade já passou, a democracia brasileira não exige mais isso.