Título: Tom brasileiro contrasta na ONU
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Fonte: O Globo, 16/02/2010, O Mundo, p. 15

França, EUA e Reino Unido criticam violação de direitos humanos

PARIS. Uma diferença brutal no tom marcou a atitude dos 47 países-membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que examinou ontem as ações do Irã em direitos humanos. Enquanto França e Reino Unido bateram forte nas violações de um regime que executa publicamente menores, discrimina mulheres e reprime a liberdade de expressão, o Brasil fez um discurso que tocou com delicadeza em pontos notórios de violações, mas que começou com elogios ao "compromisso" do governo iraniano de "dialogar" com a comunidade internacional.

Insistindo no "espírito da cooperação e do diálogo", a embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo fez seis recomendações ao Irã. Entre elas, a moratória da pena de morte, com abolição da prática no futuro. Segundo a ONU, entre 1990 e 2006, 107 menores foram executados, um número contestado pelo governo. O Brasil propôs ainda que o governo iraniano "eleve" a liberdade de expressão e associação, protegendo grupos como jornalistas e ativistas de direitos humanos.

Um tom que contrastou com o discurso do embaixador da França, Jean-Baptiste Mattéi, que acusou as autoridades iranianas de orquestrarem "uma repressão sangrenta contra sua própria população". Ou ainda o secretário de Estado adjunto dos EUA, Michael Posner, que condenou "a repressão violenta e injusta, que resultou em prisões, ferimentos e mortes".

- A crise de direitos humanos no Irã continua e é imperativo que a ONU ache formas apropriadas para lidar com isso - disse Posner.

Segundo a organização Repórteres sem Fronteira, desde a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em junho de 2009, 29 jornais foram suspensos, mais de 130 jornalistas foram presos e 60 tiveram que deixar o Irã. França e Reino Unido chegaram a pedir ontem uma investigação internacional sobre a violência que invadiu o país - o que foi rejeitado pelo Irã.

- Isso está totalmente fora de questão - reagiu Seyed Hossein Rezvani, um diplomata iraniano.

Irã vai apresentar candidatura a Conselho de Direitos Humanos

Já o Brasil, depois de elogiar melhorias nas áreas de educação, erradicação da pobreza e programas sociais, propôs ao governo iraniano que "estenda os direitos da legislação a todos os grupos religiosos, incluindo a comunidade Baha"i". No Irã, segundo organizações de direitos humanos, minorias como a Baha"i, que tem 300 mil fiéis no país, são discriminadas. O Brasil propôs ainda que o Irã se engaje na Organização Internacional do Trabalho para erradicar o trabalho infantil. O Irã rejeitou todas as críticas.

- A sociedade iraniana é um modelo de coexistência amigável e fraternal - concluiu Mohamad Jabad Larijani, secretário-geral do Conselho Superior de Direitos Humanos do Irã.

Teerã vai apresentar sua candidatura ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em junho próximo.