Título: Hillary teme ditadura militar no
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Fonte: O Globo, 16/02/2010, O Mundo, p. 15
Secretária de Estado afirma que Guarda Revolucionária suplanta líderes políticos e religiosos
HILLARY numa universidade de Doha: a secretária de Estado apresentou a avaliação mais clara já feita por um membro do governo Obama sobre o poder crescente da Guarda Revolucionária iraniana (ao lado)
DOHA, Qatar
Os Estados Unidos temem que o Irã esteja caminhando para se tornar uma ditadura militar, com o corpo da Guarda Revolucionária Islâmica assumindo o controle de vastas áreas da política, das Forças Armadas e do sistema econômico, afirmou ontem a secretária de Estado, Hillary Clinton. Num encontro com estudantes no Qatar, transmitido pela TV, Hillary negou que os EUA planejem atacar o Irã, mas que ¿não vão ficar parados enquanto o país desenvolve um possível programa de armas nucleares¿.
¿ É como vemos a situação ¿ disse, no encontro na Universidade Carnegie Mellon. ¿ Vemos que o governo do Irã, o líder supremo, o presidente e o Parlamento estão sendo suplantados e que o Irã está avançando para uma ditadura militar.
Perguntada sobre a possibilidade de um ataque, respondeu:
¿ Planejamos tentar unir o mundo na aplicação de pressão ao Irã por meio de sanções e que serão voltadas para as empresas controladas pela Guarda Revolucionária, que acreditamos que esteja na prática suplantando o governo do Irã.
Sanções terão Força como alvo
Essa foi a avaliação mais franca já feita por um membro do governo americano sobre a influência da Guarda Revolucionária, uma força de elite cuja influência tem crescido nos últimos anos, por meio de uma rede de bancos, companhias de navegação e outras empresas sob seu controle. A corporação foi criada após a Revolução Islâmica, em 1979, para proteger o regime e conta com 125 mil combatentes, que operam separadamente do Exército regular. Ela responde diretamente ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
Os Estados Unidos estão preparando um pacote de sanções mais duras tendo como alvo a Guarda, responsável pelo programa nuclear, e que, segundo Hillary, está cada vez mais marginalizando líderes religiosos e políticos.
Os comentários deixam transparecer uma nova estratégia em relação ao Irã. A própria viagem de Hillary é uma busca ao apoio contra o programa nuclear do país ¿ que Teerã afirma ser pacífico. A secretária de Estado disse ainda que os EUA vão proteger seus aliados no Golfo Pérsico. Curiosamente, à medida que o governo Obama se move da diplomacia para a pressão, sua política se aproxima daquela defendida por Hillary durante a campanha presidencial.
Os vizinhos do Irã têm três opções, disse.
¿ Podem ceder às ameaças; ou podem buscar suas próprias capacidades, nuclear inclusive; ou se aliam a um país como os EUA que desejam ajudá-los a se defender. Acho que a terceira opção é a preferível.
Ao mirar na Guarda Revolucionária, os EUA tentam estabelecer uma separação entre cidadãos e uma classe privilegiada ¿ e considerada corrupta. Semana passada, o Departamento do Tesouro congelou os bens de quatro empresas controladas por membros da Guarda. Hillary já havia sugerido que uma quarta rodada de sanções na ONU seria a única opção.
As declarações foram antes de Hillary partir para a Arábia Saudita. A intenção é pedir que o governo saudita ofereça garantias a China de fornecimento de petróleo no caso de uma interrupção se Pequim apoiar sanções ao Irã.
Em Oslo, a prêmio Nobel da Paz de 2003, Shirin Ebadi, pediu que o Ocidente imponha restrições a empresas que ajudem o Irã na repressão. A advogada, ativista de direitos humanos, citou a Nokia Siemens Networks, por fornecer tecnologia ¿para monitorar¿ conversas por celulares. Ebadi teme que novas sanções comerciais afetem os iranianos comuns:
¿ A minha pergunta aos EUA é: por que não impõem o mesmo tipo de punição pesada a empresas que fornecem equipamento ao Irã para reprimir o povo? Estou falando da Siemens e da Nokia, que forneceram o equipamento ao Irã para monitorar a nação. Isso seria uma lição para outras empresas.