Título: Para Uribe, oito anos não são suficientes
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 13/02/2010, O Mundo, p. 28
Presidente da Colômbia diz que política de segurança precisa de mais tempo, enquanto Corte decide sobre 3º mandato
Com o tempo correndo contra e mantendo um discurso ambíguo ¿ que já se tornou uma espécie de marca própria ¿, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, deixou no ar o possível desejo de concorrer a um terceiro mandato. Sem nunca assumir diretamente essa intenção e prestes a concluir o segundo mandato, ele disse ontem a uma rádio colombiana que ¿oito anos é pouco tempo¿ para a sua política de segurança.
¿ Oito anos é pouco tempo para um país que em 200 anos de vida independente teve apenas 47 anos de paz ¿ disse o presidente à rádio Z. ¿ Oito anos é apenas um princípio para um país que tem que se recuperar da pobreza, que está obtendo avanços na educação.
Oito anos é pouco tempo para recuperar a segurança.
A declaração vem no momento em que a Corte Constitucional analisa um projeto de referendo para permitir a segunda reeleição presidencial.
Mas mesmo que a Corte aprove o projeto há dúvidas se Uribe terá tempo hábil para se candidatar.
¿ A declaração pode ter sido uma mensagem para que os juízes se apressem, ou mesmo para conter as divisões no partido ¿ opina Gabriel Misas, diretor do Instituto Estudos Políticos e Relações Internacionais (Iepri), na Colômbia.
Indefinição gera incerteza na campanha
Uribe já conseguiu que a Constituição fosse alterada uma vez para se reeleger, embalado por uma forte campanha de segurança contra os grupos armados.
Se antes o conflito interno era o tema dominante das campanhas políticas, assuntos como o desemprego, a pobreza e a saúde vêm ganhando terreno.
A indefinição criou uma situação curiosa. A corrida eleitoral já começou, mas o governo ainda não definiu seu candidato.
Por isso, a mensagem de Uribe pode ter um duplo sentido.
¿ Ao dizer que oito anos não são suficientes, poderia ser interpretado como um apoio a quem leve sua política de segurança à frente, no caso, (o ex-ministro da Defesa) Juan Manuel Santos ¿ explica, por telefone, Rafael Nieto, ex-viceministro da Justiça.
No entanto, na entrevista à rádio, Uribe disse estar pronto para trabalhar ¿até o último dia de vida a partir de qualquer trincheira¿ pelo bem do país.
Mas, para a sua candidatura, o tempo é cada vez mais escasso.
Pelo menos um dos juízes já apresentou parecer contrário à segunda reeleição, segundo a imprensa colombiana, o que deverá prolongar os debates e jogar o resultado para março. Seria necessário ainda de um a dois meses para preparar o referendo.
Mas o prazo de inscrição das candidaturas vence no início de abril, e as eleições presidenciais estão marcadas para 30 de maio.
¿ Creio que não há saída. Para Uribe ser candidato, ou a Corte modifica uma data, ou modifica a outra ¿ explica Nieto.
O ex-ministro acha que mesmo que o referendo seja aprovado, será difícil que alcance o comparecimento necessário.
A incerteza afeta a campanha eleitoral. Os demais candidatos ainda não sabem se enfrentarão Uribe ou outro candidato com o seu aval. Por sua vez, o presidente pode continuar viajando pelo país sem se submeter a nenhuma regra imposta aos demais candidatos, ressalta Misas.
¿ Como Hugo Chávez, ele busca a reeleição indefinida ¿ critica o analista político.
A Corte Constitucional, por sua vez, ainda não se pronunciou.
O presidente do tribunal, Mauricio González, limitou-se a dizer ontem que a decisão será tomada ¿sem precipitação ou adiamentos¿.