Título: O ponto G, a perereca e a cachaça
Autor: Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 13/02/2010, O País, p. 10

Em discurso pré-carnavalesco em Goiânia, Lula fala de sexo, futebol e bebida

Enviado especial

GOIÂNIA. Às vésperas do carnaval, o presidente Lula da Silva abusou da irreverência nos discursos durante visita de algumas horas a Goiás ontem.

Ao lado da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua candidata à sucessão, o presidente arrancou risos da plateia ao fazer comentários de duplo sentido. Empolgado nos discursos, Lula repetia que o Brasil conquistou nos últimos anos espaços importantes no cenário internacional, não abaixando a cabeça. Ele lembrou que o país faz parte de grupos importantes como G-20, G-4 e G-8. Em outro evento vangloriouse de ser um bom jogador de futebol e fez questão de se classificar como pobre.

¿ Crie um G que o Brasil vai estar lá dentro ¿ disse o presidente, emendando: ¿ Não tem país mais preparado para achar o ponto G que o Brasil ¿ afirmou, para o delírio da plateia.

Em outro trecho do discurso, ao exemplificar as dificuldades de governar o país, citou mais uma vez a descoberta de uma espécie de perereca durante a construção de uma rodovia. Esse fato, disse, foi o suficiente para interromper as obras da estrada por, segundo ele, seis meses. Até que se constatasse que a perereca não corria mais risco: ¿ Graças a Deus. Perereca não pode se extinguir nunca ¿ disse, interrompido por mais aplausos.

Na sequência, o presidente fez um auto-exortação, escorregando depois nos termos e usando novamente a expressão ¿merda¿ em seu discurso.

Contava que, ao conversar com dirigentes internacionais, se pergunta qual deles teve a sua experiência de vida.

¿ Quem deles conhece a vida como eu? Quem é que já teve que acordar à meia noite com a água batendo no pé da cama. Levantar e ter de disputar espaço com rato, com barata, com merda? É isso que dá a gente autoridade para exigir um tratamento adequado ¿ disse Lula, que foi a Goiânia inaugurar uma barragem e uma escola numa vila onde estão sendo construídas casas populares.

Voltou a repetir que só vai parar de trabalhar à meia-noite do dia 31, quando vai ¿tomar um uísque para me preparar para entregar o cargo¿, mas adiantou que poderia tomar uma cachaça: ¿ Posso tomar uma caninha boa se alguém de Goiás me der. Goiás fala de caninha boa, mas só me dão empadão. A caninha que eu ganho é de Minas Gerais.

Alguém da plateia ofereceu uma cachaça, mas ele recusou, explicando o motivo: ¿ Não precisa dar agora não, dê depois, porque a imprensa vai fotografar, e como é que fica? Uma pessoa chique ganhando cachaça é algo chique. Um metalúrgico ganhando cachaça é porque ele é cachaceiro.

À tarde, ao visitar casas populares financiadas pelo programa Minha Casa Minha Vida, o presidente fez um discurso de improviso e ressaltou ser pobre, ao pedir que sejam asfaltadas as ruas do bairro.

¿ Esse negócio de pisar no barro quem gosta não é pobre. É preciso acabar com essa mania de achar que pobre gosta de coisa de segunda classe. Nós gostamos de coisa de primeira classe.

Lula encerrou seu discurso brincando com o craque Túlio, vereador em Goiânia e jogador do Botafogo do Distrito Federal.

¿ Ele tava contando que fez 900 gols. Eu, sem contar os gols que marquei depois dos 40 anos, fiz 1.300 gols. O Túlio vai ter que jogar muito para atingir a marca do Lula.

Na passagem de Lula por Goiás, ontem, a ministra Dilma Rousseff teve um desempenho apagado. Fez um discurso técnico e pouco empolgante.

Pela manhã, porém, em entrevista às emissoras de rádio do estado, o presidente Lula tratou de fazer propaganda da sua ministra ao falar de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), coordenado por Dilma, e dos projetos para o chamado PAC-2, que será lançado dia 26 de março em grande festa com todos os ministros.

Perguntado pelos locutores se Dilma seria uma boa presidente para Goiás, Lula disse que não tinha dúvida.

¿ Ora, porque eu aprendi, nesses oito anos, a conhecer a Dilma, eu aprendi a conhecer a capacidade de gerenciamento da Dilma e, portanto, na hora que eu tive que escolher quem deveria ser aquela pessoa que fosse dar prosseguimento às coisas que eu estava fazendo no meu governo, eu achei que a Dilma era a pessoa que tinha o melhor perfil para poder concluir as obras que nós estamos fazendo e fazer muito mais.

Para Lula, com a experiência do PAC fica cada dia mais fácil fazer as coisas, porque os obstáculos foram quebrados: ¿ Então, nós estamos anunciando, no dia 26 de março, agora, o PAC-2. O que é o PAC-2? Por que estamos anunciando agora? Porque nós temos que colocar, já no Orçamento de 2011, dinheiro para as novas obras, senão vai entrar um novo presidente, ele vai ter que começar a fazer projeto. Nós queremos deixar engatilhado para que não pare.