Título: Em 12 dias, três governadores
Autor: Franco, Bernardo Mello; Weber, Demétrio
Fonte: O Globo, 24/02/2010, O País, p. 3

Sem apoio do partido e sob ameaça de intervenção no DF, Paulo Octávio renuncia

BRASÍLIA

Isolado no próprio partido e pressionado por novas denúncias de corrupção, o vicegovernador do Distrito Federal, Paulo Octávio, renunciou ontem ao mandato e anunciou a saída do DEM, cuja Executiva Nacional se reuniria hoje para expulsá-lo. Com a decisão, Brasília passou a ter o terceiro governador em 12 dias: o presidente da Câmara Legislativa, Wilson Lima (PR). Ele também é aliado do governador afastado José Roberto Arruda, preso desde o dia 11 por ordem do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A Câmara do DF passa a ser interinamente presidida por um petista, o deputado Cabo Patrício, vice-presidente da Casa, que leu a carta de renúncia de Paulo Octávio.

Segundo o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a renúncia não afeta o pedido de intervenção federal no DF, que será julgado em março pelo Supremo Tribunal Federal: ¿ A rigor, não muda nada. O pedido de intervenção federal se fundamenta na falência generalizada das instituições no DF, sobretudo dos poderes Executivo e Legislativo. A renúncia talvez seja mais um indício dessa falência.

No México, Lula comentou a renúncia: ¿ O direito de eleger é do povo, o direito de renunciar é dele (Paulo Octávio). Quem assume agora é o presidente da Câmara. Estamos esperando decisão da Justiça sobre o pedido de intervenção.

Na carta de renúncia, enviada aos deputados distritais, Paulo Octávio culpou o DEM pela perda de condições políticas para governar.

E acusou o partido de inviabilizar sua permanência no poder, ao mandar os filiados entregarem os cargos, sob pena de expulsão.

¿Acima de tudo, o partido a que pertencia solicitou a seus militantes que deixem o governo.

Sem o apoio do DEM, legenda que ajudei a fundar no Distrito Federal e à qual pertenci até hoje, considero perdidas as condições para solicitar respaldo de outros partidos no esforço de união por Brasília. Não é saudável para o governante, nem para os governados, ver sua administração fragilizada. Sem que existam condições políticas, torna-se impossível permanecer à frente do Poder Executivo local¿, escreveu.

Ao justificar a saída, Paulo Octávio disse acreditar na volta de Arruda ao governo. Ele evitou a palavra prisão ao se referir à situação do ex-companheiro de chapa, detido na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.

¿Assumi o governo do Distrito Federal, de maneira interina, em condições excepcionalmente difíceis. O titular está privado de sua liberdade, por decisão judicial. No entanto, continua a ser o governador da cidade. Pode, portanto, em tese, retornar às suas funções a qualquer momento. Não há sentido em aprofundar uma gestão nessas circunstâncias¿, afirmou.

¿Saio da cena política¿, escreveu Paulo Octávio

Dono de um império empresarial que reúne construtoras, hotéis e shopping centers na capital federal, o vice-governador afirmou que a renúncia representa o fim de sua maior ambição política. Por causa da desfiliação, ele não poderá disputar as eleições em outubro. ¿Sempre sonhei ser governador do Distrito Federal. Trabalhei para alcançar esse objetivo. Mas em situação de plena normalidade. Não posso, nem devo, contribuir de nenhuma maneira para gerar desagregação e desassossego para o brasiliense¿.

Paulo Octávio encerrou o documento com uma adaptação do fim da carta-testamento de Getulio Vargas. Antes de se suicidar, em 24 de agosto de 1954, o ex-presidente escreveu: ¿Nada temo. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História¿. Na versão candanga, Paulo Octávio afirmou: ¿Não tenho receios. (...) Saio da cena política e me incorporo às fileiras da cidadania¿.

Wilson Lima divulgou nota ontem dizendo que deseja ser um instrumento de transição democrática entre governos eleitos e que não fará mudanças bruscas nem aceitará ingerência política.

Ele assumiu o governo do DF logo após a leitura em plenário da carta de renúncia. Lima não participou da sessão e, até as 20h15m, permanecia em seu gabinete, na presidência da Câmara.

¿Quero ser apenas e tão somente o instrumento para uma transição democrática entre um governo eleito e outro governo eleito¿, diz o texto. A frase pode sinalizar a intenção de Lima de permanecer no comando do governo do DF até o fim do ano, embora isso esteja atrelado ao destino de Arruda. Outra questão é a disposição de Lima de se candidatar nas eleições. Nesse caso, ele só poderá comandar o GDF até 3 de abril.

Na nota, Lima atacou o pedido de intervenção federal. ¿Isso equivale a cassar a soberania do povo brasiliense¿, alegou.