Título: Greves de fome em série
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 27/02/2010, O Mundo, p. 29

Mais 5 cubanos iniciam movimento e oposição teme que governo não atenda aos apelos

Amorte do preso político Orlando Zapata Tamayo após uma greve de fome de quase três meses provocou uma espécie de efeito dominó entre a dissidência cubana. Além do psicólogo Guillermo Fariñas, que na noite de quinta-feira parou de ingerir alimentos e mesmo água, quatro presos políticos aderiram ontem ao movimento. Havia ainda informações de mais quatro a seis pessoas iniciando uma greve de fome nas prisões de Holguín e Canaleta.

Fariñas pede a libertação de 25 presos políticos que se encontram com a saúde bastante deteriorada. Mas parte dos dissidentes vê com preocupação sua atitude, e a Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional entrou ontem em contato com as famílias dos presos pedindo que os demovessem da ideia.

¿ Tememos que a adesão entre os presos aumente. Achamos que o governo não vai ouvir os apelos. Esse é um ato desesperado. Eles são inocentes e estão presos há sete anos ¿ contou Elizardo Sánchez, presidente da comissão, por telefone, de Havana. ¿ Presos comuns também podem acabar aderindo

Jejum e prece para a Primavera Negra

O caso mais preocupante é o de Fariñas, um psicólogo de 48 anos que já tem a saúde debilitada pelas 23 greves de fome que fez desde 1995. Nos últimos anos, Fariñas passou a maior parte do tempo preso, primeiro por denunciar o desvio de doações hospitalares; outra por uma greve de fome pedindo a libertação de uma presa política; e a terceira por resistir a um agente de segurança. De sua casa, em Santa Clara, ele se diz disposto a continuar com a greve, apesar do protesto da família.

¿ Se o governo me deixar morrer, desta vez não terá justificativa. Não poderá dizer que foi uma casualidade, como no caso de Zapata ¿ disse, Fariñas, ao GLOBO.

Os opositores temem que o organismo de Fariñas comece a entrar em colapso 48 horas depois do início da greve. Mas o psicólogo fala com serenidade sobre o assunto e conta que hoje sua filha, de 8 anos, vai visitá-lo.

¿ Antes que eu entre em coma ¿ acrescenta.

Além de Fariñas, os dissidentes confirmaram que os presos políticos Eduardo Díaz Fleitas, Nelson Molinet e Diosdado González, detidos na penitenciária Kilo 5, e Fidel Suárez Cruz, na Kilo 8, todas em Pinar del Río, estão em greve de fome. Todos fazem parte dos 75 opositores presos em 2003.

¿ Eles foram removidos para solitárias.

Exatamente como fizeram com Zapata no início ¿ contou Sánchez. ¿ Isso complica a situação e tende a radicalizar o protesto dos outros presos.

Há relatos ainda de que de três a cinco pessoas numa prisão de Canaleta também tenham iniciado uma greve de fome e de mais uma em Holguín, onde Zapata esteve preso.

Mesmo não tendo sido divulgada pela imprensa cubana, a notícia da morte de Zapata começa aos poucos a se espalhar pela capital.

Os dissidentes já a citam como um marco ¿ com um antes e depois da morte do operário de 42 anos que defendia os direitos humanos. Alguns dizem que pela primeira vez a fragmentada oposição fala a uma só voz.

¿ O primeiro impacto da morte foi a união, pelo menos na questão dos direitos humanos. Muitos falam em mostrar maturidade, uma posição comum quanto à questão diante do governo e da comunidade internacional ¿ conta Manuel Cuesta Morúa, da organização Arco Progressista. ¿ Mas vai ter impacto também sobre a sociedade e sobre a imagem do governo no mundo. Como Cuba pode promover uma campanha de saúde enviando médicos ao exterior e deixar um cidadão seu morrer? Cuesta foi uma das mais de cem pessoas detidas após a morte de Zapata, na terça-feira. Ele foi preso quando ia à casa de Laura Pollán, uma das Damas de Branco (movimento das mulheres de presos políticos), onde era realizado um velório simbólico, e levado à força a uma delegacia. Nas 11 horas em que ficou detido, Cuesta foi interrogado. Só foi libertado quando a polícia se convenceu de que não pretendia realizar manifestação ¿ apenas assinar o livro de condolências.

A morte de Zapata e as greves de fome ocorrem pouco antes de a chamada Primavera Negra completar sete anos. Para marcar o aniversário da onda repressora de 2003, os presos políticos Oscar Elías Bicet, Julio César Gálvez, Ricardo González Alfonso, Normando Hernández, Regis Iglesias e Ángel Moya ¿ também do Grupo dos 75 ¿ marcaram para 18 de março ¿um dia de jejum nacional e de oração pela libertação de todos os presos políticos e pela reconciliação do povo cubano¿, diz a carta que conseguiram enviar da prisão de Combinado del Este.

¿ Há um efeito dominó ¿ disse Cuesta. ¿ Estamos caminhando para um ato dramático que culminará ou com um ato de racionalidade do governo, libertando os presos políticos, ou com mais repressão. A comunidade internacional precisa ficar atenta ao que vai acontecer em Cuba.

A Anistia Internacional adicionou ontem mais um cubano à sua lista de presos de consciência, que já soma 55: Darsi Ferrer, diretor de um centro de defesa dos direitos humanos em Havana, preso desde julho.