Título: Honduras: outra questão que divide
Autor: Oliveira, Eliane; Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 04/03/2010, O País, p. 16

Secretária americana também faz duras críticas ao presidente da Venezuela

BRASÍLIA. O encontro entre a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, expôs, de forma mais clara, as divergências que pautam as relações entre Brasil e Estados Unidos em outros temas, além do Irã. Eles discordaram publicamente sobre Honduras e Venezuela.

Hillary enalteceu a eleição realizada em Honduras há cerca de três meses, que levou Porfírio Pepe Lobo ao poder, dizendo que o processo representa o fortalecimento da democracia; mas Amorim lembrou que o Brasil ainda não assumiu uma posição definitiva. O ministro afirmou que um gesto simbólico importante seria Pepe Lobo permitir que o presidente deposto, Manuel Zelaya, voltasse ao território hondurenho quando quiser.

- Passamos por um trauma de viver com ditaduras e golpes militares. Eu mesmo fiquei muito tempo sem poder votar. Sabemos que houve gestos e movimentos de Pepe Lobo no sentido da reconciliação nacional, e apreciamos o trabalho que tem sido feito pela anistia. Mas vamos operar com os fatos e o tempo - disse Amorim.

Mais cedo, Hillary cobrou dos parlamentares brasileiros, em visita ao Congresso, o reconhecimento, por parte do Brasil, da eleição em Honduras. Segundo relato do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), a secretária de Estado disse que o Brasil precisava apoiar Pepe Lobo o mais rapidamente possível.

- O Brasil entrou numa enrascada. Pior do que mudar de posição é insistir no erro - comentou o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Eduardo Azeredo (PSDB-MG).

Hillary criticou duramente o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao ser perguntada sobre o discurso antiamericano feito com frequência pelo líder venezuelano. Ela disse que conhece bem as declarações de Chávez e frisou que ele está minando as liberdades de imprensa e de livre mercado.

- Não participamos de qualquer atividade que tenha a intenção de prejudicar o povo venezuelano. Nos preocupamos com o comportamento do governo venezuelano. Acreditamos que a Venezuela deveria olhar para modelos como os do Brasil e do Chile - afirmou.

Amorim, por sua vez, disse que, embora não concorde com tudo o que disse Hillary a respeito da Venezuela, pensa da mesma forma que ela, quando a sugestão é para que os venezuelanos olhem mais para o Sul:

- Tanto é assim que convidamos a Venezuela a entrar para o Mercosul - lembrou o ministro. (Eliane Oliveira e Catarina Alencastro)