Título: Lula: Não é prudente encostar o Irã na parede
Autor: Oliveira, Eliane; Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 04/03/2010, O País, p. 16
Hillary Clinton insiste para que Brasil concorde com sanções; governo brasileiro mantém apoio a Ahmadinejad
Eliane Oliveira, Catarina Alencastro, Chico de Gois e Luiza Damé
BRASÍLIA. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, tentou ontem pressionar o governo brasileiro a mudar de posição e apoiar as sanções propostas por parte da comunidade internacional contra o Irã. Mas não conseguiu. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuou mantendo o discurso de apoio ao governo iraniano.
Em visita a Brasília, onde fez um périplo pelo Congresso Nacional, Hillary teve uma reunião de trabalho com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e foi recebida pelo presidente Lula. Hillary admitiu que Brasil e EUA concordam que o Irã não pode se tornar uma potência nuclear. Disse ainda que o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, não fala a verdade ao se defender e cobrou uma atitude mais firme do Brasil.
- O Irã vai ao Brasil, à China, à Turquia e conta histórias diferentes para cada um. Estamos consultando o Brasil porque vai chegar um momento em que teremos que tomar uma decisão - disse ela.
Antes de se reunir com Hillary, Lula já se mostrava refratário às pressões. Reafirmou o apoio do Brasil ao Irã, mas frisou que essa concordância se dará apenas se os iranianos adotarem a energia nuclear para fins pacíficos. Segundo ele, não seria conveniente, neste momento, isolar os iranianos.
- Não é prudente encostar o Irã na parede. O que é prudente é estabelecer negociações - afirmou Lula, relatando que já expressou sua visão a líderes mundiais, como o próprio presidente dos EUA, Barack Obama.
- Defendo para o Irã o mesmo que eu quero para o Brasil: utilizar o desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos. Se o Irã tiver concordância com isso, terá o apoio do Brasil. Se o Irã quiser ir além disso, irá contra aquilo que está previsto na Constituição brasileira e, portanto, não podemos concordar - afirmou o presidente Lula.
Uma "conversa franca" com Ahmadinejad
O presidente disse que em maio, durante visita a Teerã, pretende ter uma conversa "muito franca" com Ahmadinejad. Mais tarde, conversou com Hillary durante uma hora, quando praticamente repetiu a visão do governo brasileiro repassada a ela, no início da tarde, por Amorim.
- Se tem um país que pode dar lição ao mundo de comportamento sobre paz é o Brasil. Aqui não apenas defendemos a paz. Nós a exercitamos com galhardia - disse Lula.