Título: O PAC da incerteza
Autor: Allan, Ricardo
Fonte: Correio Braziliense, 09/06/2009, Economia, p. 14
Governo americano lança programa de US$ 787 bilhões em obras públicas com a finalidade de gerar 600 mil empregos em 100 dias. Especialistas estão céticos quanto à capacidade de Obama em tirar o país da recessão
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lançou ontem um programa de obras de infraestrutura para criar ou manter 600 mil empregos nos próximos 100 dias. Chamado de Mapa da Recuperação, o plano inclui a reforma e ampliação de 98 aeroportos e 1,5 mil rodovias, a construção de 200 estações de tratamento de água e esgoto, a remodelação de 107 parques nacionais e o financiamento da abertura de 135 mil postos de trabalho nas escolas públicas do país, entre outras iniciativas. Essa estratégia faz parte de uma espécie de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) norte-americano, que vai torrar US$ 787 bilhões em dinheiro público até 2011. Apesar do esforço, especialistas ouvidos pelo Correio estão céticos quanto a seu poder de tirar o país da recessão em curto prazo.
¿O aumento de despesas públicas para estimular a economia só gera efeitos em médio e longo prazos. Além disso, ainda há uma incerteza muito grande no cenário dos Estados Unidos. O objetivo do governo é fazer com que os empregos criados aumentem o nível de consumo, mas nada garante que os trabalhadores vão gastar esse dinheiro. Com medo do que possa acontecer no futuro, eles podem poupar. Se isso ocorrer, o plano se torna quase inútil¿, explicou o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes. Ex-diretor do Banco Central (BC), Gomes ainda aponta outro dificuldade: lá como aqui, o processo de licitação de obras públicas é muito demorado, o que retarda os reflexos positivos do programa.
Benefícios Segundo o economista, o PAC brasileiro também tem pouca influência na atividade econômica. Para ele, o que faz a diferença no cenário interno é o Bolsa Família, que garante um rendimento de até R$ 120 para cerca de 11,4 milhões de famílias de baixa renda ¿ o orçamento para este ano é de R$ 12 bilhões. ¿Quando a crise chegou, esse programa já estava estruturado e funcionando. É ele que está segurando o comércio. É injeção de dinheiro na veia¿, diz. Segundo as estatísticas oficiais, as obras do PAC dos EUA já comprometeram US$ 135 bilhões neste ano, com pagamentos efetivos de US$ 44 bilhões. No Brasil, já foram empenhados R$ 7,7 bilhões do orçamento federal, mas os desembolsos totais, incluindo os das estatais e do setor privado, chegaram a R$ 62,9 bilhões até abril.
¿Eu não estou satisfeito. Temos um longo caminho a percorrer, mas estamos na direção certa¿, afirmou Obama ao cobrar mais rapidez na implantação do plano, que será coordenado pelo vice-presidente Joe Biden. O consultor Carlos Eduardo de Freitas, também ex-diretor do BC, acredita que o programa irá ajudar na recuperação, mas seus efeitos não serão sentidos mais neste ano. ¿Ele dá um certo oxigênio para a economia, associado a outras medidas, como o salvamento das montadoras de automóveis e o saneamento dos bancos. Mas é um projeto até 2011. Não é para agora¿, disse.
Ele também tem dúvidas se os trabalhadores usarão a eventual elevação na renda para consumir. ¿Os agentes econômicos estão bastante inseguros. O momento ainda é de cautela, o que pode incentivar a poupança em vez dos gastos¿, corroborou.