Título: Indústria e investimentos têm maior queda anual desde o Plano Collor
Autor: Novo, Aguinaldo; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 12/03/2010, Economia, p. 26

A CONTA DA CRISE: Para 2010, Fiesp vê avanço de 13% no setor fabril paulista

Atividade industrial se recupera no fim do ano e cresce 4% no último trimestre

SÃO PAULO e RIO. Sergio Leme não terá saudades de 2009. Presidenteda Dedini, uma das maiores fabricantes de máquinas e equipamentos dopaís, ele teve de fazer malabarismos para compensar uma queda de 40% novolume de novas encomendas, o pior resultado nos últimos dez anos. Nosegundo trimestre, o nível de utilização da capacidade instalada dacompanhia já havia desabado para 50%, contra uma média histórica de85%.

- Tivemos de cortar 800 funcionários, o equivalente a 15% do nosso quadro de pessoal - lembra o empresário.

O caso da Dedini - que fornece equipamentos para setores comoaçúcar e etanol, mineração e petróleo e gás - é um retrato do queocorreu com a indústria e os investimentos no ano passado. Fortementeafetada pelo freio na atividade econômica e pela falta de crédito parafinanciar novos projetos, a indústria registrou queda de 5,5% em 2009,a primeira retração desde 2001 (-0,6%) - que foi ano de racionamento deenergia. Foi também o maior tombo desde 1990, quando o setor amargouuma queda de 8,2%, como reflexo da recessão provocada pelo PlanoCollor.

Taxa de investimento cai para 16,7% do PIB

Já o investimento - a formação bruta de capital fixa, que inclui osaportes de indústria, serviços, agricultura e, ainda, a construçãocivil - despencou 9,9%, também na maior queda desde 1990, quando ficaranegativo em 10,9%. Com isso, a taxa de investimento (ou seja, o volumeaplicado como proporção do PIB) recuou de 18,7% para 16,7%.

O tombo da indústria no ano passado só não foi maior graças àreação que começou a ser desenhada no último trimestre de 2009, quandoo setor cresceu 4% sobre o trimestre anterior, descontados efeitossazonais.

- O time estava perdendo e conseguiu um gol no último minuto dojogo, que acabou tendo um sabor de vitória - comparou o economistaJúlio Gomes de Almeida, da Unicamp e ex-secretário de PolíticaEconômica do Ministério da Fazenda.

E os primeiros indicadores de 2010 confirmam esta recuperação. Emjaneiro, a produção industrial cresceu 1,1%. De novo, a Dedini éexemplo: as encomendas no primeiro bimestre aumentaram 50% nacomparação com 2009.

- A crise já pertence ao passado - afirmou o diretor doDepartamento de Economia da Federação das Indústrias do Estado de SãoPaulo (Fiesp), Paulo Francini.

A Fiesp prevê crescimento de 13% para o Indicador de Nível deAtividade (INA) da indústria paulista neste ano. Francini destaca odesempenho de setores como o de metalurgia.

Freio nas exportações ameaça retomada da indústria

A despeito das previsões otimistas, há o temor de que a recuperaçãonão seja permanente. Gomes de Almeida afirma que o ponto fraco no atualcenário é a desaceleração das exportações de manufaturados, queequivalem a até 25% da produção da indústria nacional. Segundo ele, orisco é o governo permitir um aumento do déficit externo.

Economista do Instituto de Estudos para o DesenvolvimentoIndustrial (Iedi), Rogério Cesar Souza crê que a atual reação daindústria pode ser ameaçada por uma invasão de importados e por umfreio nas exportações:

- O real valorizado não apenas facilita o acesso de produtos deoutras nações no mercado nacional como impede que produtos brasileirosalcancem terceiros mercados.