Título: Um Lobo que pacifica os grupos de Serra e de Alckmin no PSDB de SP
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 14/03/2010, O País, p. 4

Conciliador, tucano tem ainda fama de nunca deixar dívidas nas eleições

SÃO PAULO. Ao escolher José Henrique Reis Lobo para coordenar sua campanha à Presidência, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), resolveu sua principal dificuldade doméstica. A escolha foi aprovada pelas duas alas do PSDB paulista: a serrista e a alckmista, do ex-governador Geraldo Alckmin, o tucano que mais acumulou diferenças com Serra. Embora pouco conhecido nacionalmente, Lobo representa a convergência entre os tucanos paulistas.

Além de suas qualidades para a campanha, Lobo nos trouxe convergência partidária afirma o deputado federal José Anibal.

Melhor amigo de Alckmin, Lobo se aproximou de Serra a ponto de ocupar a Secretaria estadual de Relações Institucionais, além de se manter na presidência do Diretório Municipal do partido. A ideia é que, além de coordenar a campanha presidencial, Lobo faça a ponte com a campanha de Alckmin, que espera se candidatar ao governo de São Paulo.

O Lobo hoje é nossa ponte mais importante, porque trabalha com Serra e dialoga com Alckmin avalia outro líder tucano, do grupo serrista.

Tucano foi chefe de gabinete de Mario Covas Além de conciliador, Lobo é um político muito discreto. Integrante do grupo histórico do PMDB que ajudou a criar o PSDB, ele se mantém em cargos distantes dos holofotes.

Esteve em todas as administrações de Mario Covas, como chefe de gabinete ou presidindo fundações, com Alckmin e Serra, tanto na prefeitura quanto no governo. Procurador aposentado, Lobo foi presidente do Memorial da América Latina (2002/2004) e assessor especial do governo do estado na gestão Geraldo Alckmin (2000/2002).

Nascido em Guaratinguetá (SP), Lobo chegou em São Paulo em 1966, para estudar Direito e ser redator de atos na Assembleia Legislativa. Logo se ligou ao antigo PMDB. Passou sete dias preso pelo regime militar no 2º Exército. Antes do fim da ditadura, entre 1970 e 1974, elegeu-se vereador e, depois, vice-prefeito de Guaratinguetá.

É amigo de Alckmin desde essa época. Desses tempos, guarda a fama de centro-esquerda.

E fez amigos que atuam com direitos humanos, como o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, expert independente das Nações Unidas.

No PSDB nacional, Lobo tem pouca projeção, mas goza da fama por seu bom desempenho na campanha de Serra, em 2004, e nas campanhas de Alckmin.

Tem fama de pão-duro nos gastos eleitorais. Lobo é elogiado por terminar as campanhas sem dívidas e por ser um concliador.

O vice-governador, Alberto Goldman, costuma brincar sobre Lobo dizendo que o sonho da vida dele é fazer uma campanha com custo zero.

Para os amigos, Lobo costuma afirmar que não gosta de campanhas pirotécnicas, com muitas festas. Pouco belicoso, ele tem recitado uma fórmula para a campanha de Serra: o mínimo de ataques possível, sobriedade, inteligência e gastos mínimos.

Cinéfilo, admirador de música clássica, de teatro e exposições de arte, pouco amigo das festas, Lobo gosta de boa culinária e costuma usar os almoços e jantares como extensão do trabalho. Foge dos flashs, não costuma dar entrevistas, mas gosta de desfilar gravatas finas. Alguns amigos do governador afirmam que a cultura geral, o pragmatismo político e o estilo lorde inglês de Lobo cativaram Serra.

Num passado não muito distante, no entanto, Lobo foi um dos pivôs de uma grande briga no PSDB paulista. Foi há dois anos, quando Serra decidiu apoiar o hoje prefeito Gilberto Kassab (DEM) na disputa para a Prefeitura de São Paulo, em detrimento de Alckmin. Houve uma convenção do partido e Lobo, como presidente do diretório local, anunciou que lançaria Alckmin: Comunico a todos vocês que a Executiva do Diretório Municipal do PSDB, cumprindo os seus compromissos e respeitando a vontade manifesta da militância e da base partidária, vai levar à convenção municipal do PSDB o nome de Geraldo Alckmin, anunciou Lobo.

Depois do desgaste, boa relação com Serra O staff serrista, capitaneado pelo secretário municipal de Esportes, Walter Feldman, e pelo vereador Gilberto Natalini, que defendeu na reunião a desistência de Alckmin em prol da reeleição de Kassab, acusou Lobo aos gritos: Arbitrário, arbitrário, arbitrário. Kassab era vice de Serra até 2006, quando o tucano deixou a administração municipal para vencer a eleição para o governo. Além disso, os alckmistas, ligados também a Covas, não aceitavam a aliança de Kassab com o PMDB de Orestes Quércia, desafeto de Covas, mas que hoje integra a aliança tucana.

Nessa reunião, Alckmin chegou à convenção, no centro de São Paulo, logo após o anúncio de Lobo. A Executiva apresentou por unanimidade a candidatura própria. É preciso respeitar a maioria, dizia ele. Sobre a divisão do partido, contemporizava: Na campanha vai estar todo mundo junto. Não houve campanha para Alckmin, mas sim para Kassab.

Vários tucanos afirmam que a roda girou, mas tocada por Lobo. O futuro coordenador da campanha de Serra teria sido a ponte para que Alckmin assumisse seu cargo atual, de secretário de Desenvolvimento de Serra. Também já teria convencido Serra a apoiar Alckmin para sua sucessão no governo paulista, em detrimento de Aloysio Nunes Ferreira, chefe da Casa Civil. O acordo seria o de Aloysio Nunes ser o próximo a disputar o cargo pelo partido, em 2014.