Título: Realista, economista previu queda de 0,9%
Autor: Nunes, Vicente
Fonte: Correio Braziliense, 10/06/2009, Economia, p. 14

Em meio ao pessimismo que dominou o mercado nos últimos meses, a ponto de alguns analistas preverem um tombo de até 3% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre do ano em relação aos últimos três meses de 2008, a economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif, foi uma voz quase isolada ao afirmar que o monstro não era tão feio quanto parecia. Apostando que a renda dos brasileiros se manteria firme e que as medidas adotadas pelo governo para minimizar os reflexos da crise surtiriam efeito, ela cravou estimativa de retração econômica de 0,9%, o número mais próximo verificado no mercado da retração de 0,8%.

Nas contas de Zeina, com a inflação sob controle, os juros em queda, a retomada do crédito e a manutenção do emprego, o PIB brasileiro fechará o ano com crescimento de 0,5% (ante um consenso de queda de 0,6%). O que será um feito e tanto num contexto de forte retração mundial. Mas ela ressalta que, para se chegar ao desejado avanço de 5% ao ano, o país precisa retomar rapidamente os investimentos produtivos. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Correio Braziliense. (VN)

O que levou a senhora a deixar o excesso de pessimismo de lado e apostar em uma contração menor da economia brasileira no primeiro trimestre deste ano? Me pautei muito pelo ritmo de consumo das famílias. Apesar de os números da produção industrial aparecerem muito ruins, os dados do comércio mostravam uma demanda resistente, devido às medidas adotadas pelo governo para manter o poder de compra da população. Também vimos o crédito se recuperar rápido para as pessoas físicas, voltando aos níveis de antes da crise (que explodiu em setembro de 2008). O consumo das famílias, inclusive, se mostrou mais forte do que eu imaginava. Pelas contas do IBGE, cresceu 0,7% ante os últimos três meses de 2008. Eu apostava em um número mais próximo de zero.

A senhora compartilha do sentimento do governo de que o PIB ainda poderá encerrar este ano com crescimento? Sim. Sei que estou destoando da maioria do mercado, cujo consenso aponta (ou apontava) para uma queda de 0,6% no ano. Pelas minhas contas, o PIB crescerá 0,5%, resultado que será sustentado, sobretudo, pelo consumo das famílias e do governo, além, é claro, da queda dos juros, que tende a incrementar o crédito e destravar os financiamentos para o setor produtivo, que precisa retomar os investimentos. No Brasil, o impacto da redução dos juros na economia é muito mais rápido do que nos Estados Unidos, onde os efeitos aparecem entre um e dois anos ¿ aqui, é de seis meses, em média. Além disso, o setor externo não está ¿roubando¿ parte do PIB, como ocorreu nos últimos anos. As exportações estão tendo um comportamento melhor do que as importações.

Como a senhora viu a ação do governo para minimizar os efeitos da crise mundial? No geral, as medidas de incentivo ao consumo, como a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) incidente nos automóveis, foram adequadas. Mostraram o quanto a carga tributária é um forte inibidor para o consumo. O ideal, no entanto, seria que o alívio nos impostos ¿ que se estendeu para os setores como o de eletrodomésticos e de construção civil ¿ viesse acompanhado de mais investimentos públicos e não de aumentos de salários de servidores, que são fixos, não podem ser reduzidos ao longo dos próximos anos.

Há um debate sobre o tamanho da queda dos juros que será divulgada hoje pelo Banco Central. Até que ponto a taxa Selic pode cair sem pressionar a inflação? A política monetária chegou a um ponto que exige uma sintonia fina por parte do BC. Os cortes realizados na Selic até agora ¿ de 13,75% para 10,25% ao ano ¿ foram muito corretos e, certamente, vão contribuir para a retomada da economia nos próximos trimestres. Eu acredito que, hoje, os juros vão cair 0,75 ponto percentual. Mas, na minha opinião, deveria baixar 0,5 ponto. Depois, disso, poderá haver uma pausa, para que o BC tenha uma visão mais clara do nível da atividade.