Título: Bento XVI pede desculpas por abusos da Igreja
Autor:
Fonte: O Globo, 21/03/2010, O Mundo, p. 48

Em carta aos fiéis da Irlanda, Papa reconhece `graves erros¿ e determina investigação de escândalos sexuais

O CARDEAL Sean Brady, líder da Igreja Católica na Irlanda, entrega a carta do Papa a um garoto

O PAPA Bento XVI: ¿vergonha e remorso¿

A CARTA do Papa é lida na Praça de São Pedro

VATICANO. Em um documento sem precedentes na história da Igreja Católica, o Papa Bento XVI pediu desculpas aos fiéis irlandeses e expressou vergonha e remorso pelos casos de abuso sexual praticados por padres naquele país e ordenou uma investigação na instituição na Irlanda. A carta, cujo conteúdo foi divulgado ontem, se refere apenas à Irlanda, mas, em meio à onda de denúncias de pedofilia na Igreja na Europa, o Vaticano informou que ela pode ser lida como um texto aplicável a outros países.

¿Vocês sofreram gravemente e eu verdadeiramente sinto muito... Eu abertamente expresso a vergonha e o remorso que todos nós sentimos¿, escreveu Bento XVI às vítimas.

Considerada o primeiro reconhecimento público da gravidade do problema dentro da Igreja Católica, a carta pastoral de Bento XVI no entanto, não admite a responsabilidade do Vaticano, o que decepcionou grupos que defendem os direitos das vítimas de abuso.

Em Dublin, em 2009, relatórios de uma comissão independente e de uma comissão governamental revelaram que a Igreja acobertou casos disseminados de abusos sexuais, estupros e espancamentos de crianças em instituições católicas dos anos 1930 aos 90. Pelo menos 170 padres estariam envolvidos

O Papa criticou bispos irlandeses por ¿graves erros de julgamento¿ na maneira como lidaram com as denúncias de pedofilia. A carta não trata de punições, mas determina abertura de investigação em dioceses, seminários e ordens religiosas irlandesas.

¿Eu só posso compartilhar a consternação e o sentimento de traição que tantos entre vocês vivenciaram ao tomar conhecimento desses atos pecaminosos e criminosos e da forma como as autoridades eclesiásticas na Irlanda lidaram com eles¿, avaliou Bento XVI.

Defensores das vítimas ficaram desapontados

O principal grupo de defesa das vítimas irlandesas, chamado One in Four, se disse profundamente desapontado com a carta, porque ela deixou de reconhecer a culpa do Vaticano naquilo que eles descrevem como uma ¿política deliberada da Igreja Católica, em seus escalões mais altos, de proteger os que praticam os abusos sexuais, colocando, desta maneira, as crianças em situação de risco¿.

¿Se a Igreja não pode reconhecer esta verdade fundamental, ela ainda está vivendo em negação¿, diz nota do One in Four.

Centenas de novas denúncias de abuso sexual na Igreja Católica se tornaram públicas nas últimas semanas em diversos países da Europa, como Alemanha, Áustria, Suíça e Holanda. Na Alemanha, o arcebispo Robert Zollitsch pediu desculpas em fevereiro por mais de 100 denúncias de abusos de crianças por padres no país. Neste mês, a Diocese de Regensburg, comandada no passado por Georg Ratzinger, irmão do Papa Bento XVI, também reconheceu que foram registrados casos de abuso.

Quando era cardeal no Vaticano, Joseph Ratzinger assinou uma carta instruindo bispos de todo o mundo a reportar casos de abuso a ele, mas determinando que fossem mantidos em segredo, sob ameaça de punição com excomunhão. Bispos irlandeses alegam que essa carta de Ratzinger foi compreendida como uma orientação para que os casos de abusos não fossem relatados à polícia.

Na carta divulgada ontem, que está sendo distribuída aos fiéis nas paróquias irlandesas e será lida nas missas de hoje, o Papa Bento XVI usa suas mais duras palavras de condenação aos padres que perpetraram atos de abuso sexual, afirmando que eles terão de responder perante Deus e as autoridades civis. ¿Não escondam nada¿, disse o Papa: ¿Reconheçam abertamente sua culpa, submetam-se às demandas da Justiça, mas não percam a esperança na misericórdia divina¿.

O Papa também expôs a culpa dos superiores dos acusados, por terem falhado ¿algumas vezes gravemente¿ em aplicar as leis da Igreja que determinam punições severas para os abusos contra crianças, inclusive com a perda da batina.

Mas Bento XVI não repreendeu os bispos por terem deixado de informar as denúncias à polícia, dizendo apenas que sérios erros foram cometidos e que é necessário continuar a cooperar com as autoridades civis para prevenir que novos casos aconteçam.

¿Reconheço como é difícil apreender a extensão e a complexidade do problema, obter informação confiável e tomar as decisões¿, escreveu o Papa. ¿Ainda assim, é preciso admitir que graves erros de julgamento foram cometidos e que falhas de liderança ocorreram. E que isso minou seriamente a nossa credibilidade¿.