Título: Curió, o interventor linha dura
Autor: Melo, Liana
Fonte: O Globo, 21/03/2010, Economia, p. 30
Major e ex-agente do SNI proibia até mulheres no garimpo
MAJOR CURIÓ, em sua casa em Brasília, aponta para foto dos comediantes Didi e Zacarias, durante visita da dupla ao garimpo de Serra Pelada
SERRA PELADA (PA). A inflação batia no teto e, pelo segundo ano consecutivo, o então presidente João Baptista Figueiredo não tinha indicadores na economia compatíveis ao do milagre econômico para ostentar. Era 1980. O boato de que em Serra Pelada o ouro brotava do chão levou para lá cerca de 100 mil homens.
Foi movido pelo temor de que o garimpo se transformasse num território sem lei, que o major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, foi despachado para o local.
¿ Ser mão de ferro é cumpri a lei. É um dever de toda autoridade ¿ admite Curió, acrescentando ¿nunca ter permitido bandido em Serra Pelada¿.
Ex-agente do Serviço Nacional de Informação (SNI) e o responsável por desbaratar a Guerrilha do Araguaia, Curió virou interventor do garimpo.
¿ Ele era o diabo, mas inteligente o suficiente para desarmar os garimpeiros, que viviam num bangue-bangue ¿ lembra José Sobrinho, vice-presidente da Cooperativa de Mineração de Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp);
Curió não só deixou sua marca em Serra Pelada como fundou uma cidade com seu próprio nome: Curionópolis.
Se hoje Serra Pelada tem 41,9% de mulheres; no passado, elas eram proibidas por Curió. Só puderam engrossar as estatísticas oficiais a partir de 1986. Só que bem antes de a entrada das mulheres ser liberada na cidade dos homens, algumas viviam clandestinas na vila.
Além de mulheres, também eram proibidos armas, bebidas e jogos. Curió autorizava a exibição de clássicos pornôs, que eram assistidos em praça pública.
Como bebida também era proibida, a alternativa era improvisar. Os garimpeiros burlavam as ordens de Curió e passavam a noite embriagando-se com uma mistura de Biotônico Fontoura, remédio usado para estimular o apetite, e álcool etílico. (Liana Melo)