Título: BC confirma: juros subirão para conter inflação
Autor: Oswald, Vivian; Alvarez, Regina
Fonte: O Globo, 26/03/2010, Economia, p. 29
Ata de reunião mostra ainda que Banco Central prevê redução da economia para pagar juros do setor público em R$ 38 bi este ano
BRASÍLIA e SÃO PAULO. A mensagem da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) foi clara: os juros subirão para conter a escalada da inflação. No documento, os diretores do Banco Central (BC) afirmam que a projeção oficial para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) aumentou em relação ao valor calculado na reunião anterior e se encontrava sensivelmente acima do valor central da meta prevista para o ano, de 4,5%.
Na reunião da semana passada, o BC decidiu manter a taxa básica, Selic, em 8,75% ao ano pela quinta vez consecutiva.
Outra novidade da ata é que o BC já trabalha com redução de até 1,12 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) da meta de superávit primário do setor público em 2010 (de 3,3% do PIB), o equivalente a R$ 38,7 bilhões, relativa às despesas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Trata-se de R$ 5,1 bilhões acima do que o governo admitiu gastar com o programa no anúncio dos cortes do Orçamento, na semana passada. Na ocasião, o Ministério do Planejamento divulgou uma estimativa de gasto de R$ 33,6 bilhões.
A previsão de aumento dessas despesas que podem ser deduzidas da meta de superávit por autorização da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) indica que o BC está trabalhando com um esforço fiscal efetivo para abater a dívida pública de 2,18% do PIB, já contabilizado na decisão de aumento de juros daqui para frente.
Um eventual abatimento da meta contraria o que vem dizendo internamente o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que afirma ser uma questão de honra atingir o percentual de superávit de 3,3% do PIB.
Necessidade de elevar juros foi consenso na reunião Na última reunião, segundo a ata, todos os participantes do encontro já viam a necessidade de subir os juros de forma a conter o descompasso entre o ritmo de expansão da demanda doméstica e a capacidade produtiva da economia, bem como para reforçar a ancoragem das expectativas de inflação.
O mercado financeiro já está contando há semanas com o aumento da Selic para 9,25% ao ano a partir de abril, conforme a pesquisa realizada pelo BC com especialistas. Esperava-se uma mensagem dura dos diretores que participam da reunião do Copom. Mesmo assim, as indicações surpreenderam alguns especialistas.
Esta ata foi muito mais dura e clara do que esperava na indicação de que está dado o ciclo de aperto monetário. Mais do que isso, há sinais de que, por conta da espera, a alta agora deve ser superior ao 0,5 ponto percentual com que se contava disse o economista-chefe da Máxima Asset, Elson Teles.
Perguntado sobre a surpresa gerada no mercado pela clareza da ata, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse: É normal que existam sempre motivos para que as pessoas comentem. Ou que a ata não foi muito clara ou, como agora, uma surpresa agradável.
A ata, do nosso ponto de vista, é sempre clara afirmou ele, em evento em São Paulo ontem.
A aparente divisão dos diretores sobre o aumento dos juros se limitou ao momento em que se daria o ajuste, tendo em vista que todos concordam com ele. Enquanto cinco dos oito diretores achavam que era mais prudente aguardar a evolução do cenário macroeconômico antes de dar início ao ajuste, os outros três votaram por uma alta imediata de 0,5 ponto percentual.
Para BC, medidas de estímulo terão impacto na inflação O BC também dá a entender que as medidas de estímulo fiscal adotadas pelo governo para amenizar os impactos da crise financeira no ano passado devem ter efeito sobre a inflação e vão pautar a trajetória dos juros.
Os diretores consideram que esses benefícios fiscais e creditícios vão contribuir para a consolidação da retomada da economia e, por isso, para a redução de qualquer margem residual de ociosidade na produção. Por esta razão, os efeitos desses estímulos serão parte importante do contexto no qual decisões futuras de política monetária, que devem assegurar a manutenção da convergência da inflação para a trajetória de metas em 2010 e 2011, serão tomadas.
COLABOROU: Ronaldo DErcole