Título: Felizes, separados
Autor: Leitão, Míriam
Fonte: O Globo, 27/03/2010, Economia, p. 34

O presidente Lula não gosta de nós. Que boa notícia. Perigoso seriase o presidente achasse que a imprensa brasileira faz exatamente o queele quer e dá apenas a sua visão dos fatos. Imagine que monótono seriase todos os meios de comunicação se contentassem em registrar asavaliações do governo sobre suas próprias ações, se Lula jamais fossecriticado, se ninguém tivesse dúvidas.

Deve ser assim a imprensa chinesa, aquele país onde até um site debusca tem que ser censurado, porque nem os fatos passados, há 21 anos,podem ser contados como eles foram, como o massacre da Praça da PazCelestial. Com uma imprensa assim sonha Hugo Chávez quando fecha TVs,persegue jornais, prende jornalistas, opositores e quer controlar ainternet. Foi assim, absolutamente do gosto dos governantes, os tempossoviéticos do "Pravda" e da Agência Tass. Em Cuba, ainda é assim. FidelCastro não tem reclamações do "Gramma", e jornalista cubano que pensadiferente está na cadeia, fazendo greve de fome, ou se arriscando nasmídias sociais. Na Coreia do Norte, então, a imprensa deve serconsiderada pelo governo como de muito boa fé porque nada diz dediferente. Aqui, os governos continuarão contrariados, felizmente. Oprincipal candidato de oposição, José Serra, também faz críticas àimprensa. Que boa notícia.

Aqui, o governo Lula tentou duas vezes criar mecanismos de controleda imprensa, como agências e conselhos. Volta a tentar agora, mas asociedade tem solenemente enfrentado qualquer tentativa em transformarseu desgosto com a imprensa em lei coercitiva.

O governo investiu muito em ampliar a imprensa oficial. Deveriaficar contente com ela porque a versão oficial dos fatos está tendoampla divulgação. Por alguma razão isso não o satisfaz e quer essemesmo enfoque nos órgãos de comunicação não governamentais.

A esta altura, aos 40 minutos do segundo tempo, do seu período deoito anos no governo, Lula ainda reclama da imprensa com acusaçõesfeitas como "má fé". Tudo bem, como a imprensa é livre, e ele temdireito à sua opinião a respeito da imprensa, os jornais registram acrítica, com destaque, toda vez que ele a faz. Ele tem uma predileçãopor escalar o tom de voz em períodos eleitorais. Coincidência,certamente.

Lula disse uma frase brilhante, ao falar mal da imprensa. É assim:

- A mim, não me importa que fiquem incomodados, porque eu ficaria incomodado se o contrário acontecesse - disse Lula.

Está aí um ponto de concordância; um texto que pode ser subscritopor quem pensa o oposto do que ele pensa. Seria de incomodar a imprensatambém, se ela jamais incomodasse o governo.

A crítica de que a imprensa tem predileção por noticiar a"desgraça" já não tem o mesmo brilhantismo; não é inédita e é antiga.Os jornalistas têm até respostas prontas para ela: se tudo acontececomo o previsto, não rende mais do que uma linha no jornal, poucossegundos na TV, e não completa nem os 140 toques do twitter; se háalguma descontinuidade, inesperado, espanto, aí sim é notícia. É danatureza do nosso elemento, o inesperado. Às vezes, pode ser o bomimprevisto. Ao contrário do que o presidente imagina, ele já ocupoupáginas e páginas do jornal com o bom espanto. Por exemplo, quantasvezes foi dito que, ao contrário de tantas previsões, seu governomanteve a defesa da estabilidade da moeda? Notícia boa. Inesperada. Éque durante tantos anos os programas do PT e os discursos do entãocandidato Lula falaram contra as bases da estabilização da moeda, quetemia-se pelo seu desempenho nesta área.

O presidente Lula tem medo de que daqui a 30 anos os estudantesestejam estudando "mentiras" registradas pelo que ele chamou de"tabloides" de hoje. O presidente deve ficar tranquilo quanto a isso. Ahistória costuma depurar eventuais excessos, confrontar dados,revisitar os fatos. Até porque há versões diferentes em cada jornal.Dentro de um mesmo órgão há, frequentemente, artigos que são diferentesdas matérias, que divergem dos editoriais. Liberdade produz essadiversidade. A imprensa comete erros, e se corrige ou publica a opiniãode quem se sente atingido. E o leitor, telespectador, ouvinte, vaiformando a sua opinião ao confrontar esses dados e informaçõesdiferentes.

O presidente Lula disse ainda que se os jornais "não querem saberpor seus olhos, poderiam saber pelas pesquisas de opinião pública".Essa ideia é péssima. Imagina se a imprensa se guiasse no noticiáriopelas pesquisas de opinião sobre o governante? Seria uma espécie dejornalismo pró-cíclico: notícias boas quando a popularidade dogovernante é alta; notícia ruim quando a popularidade é baixa. É melhordeixar tudo separado: notícia e pesquisa de opinião.

O que é condenável nas críticas do presidente Lula à imprensa é areiterada e infundada acusação de preconceito. Esse ponto faz mal aopaís como um todo. Cada vez que ele se diz perseguido pelos "letrados",por não ser um "letrado", pode estar incentivando um jovem, que oadmira, a deixar os livros de lado. E sem os livros o Brasil não vairealizar nossos sonhos comuns de progresso. Esta semana um empresáriode tecnologia da informação me disse, numa entrevista, que para ser umbom funcionário dessa indústria não basta ser hábil em todos osequipamentos de informática. É preciso ter capacidade de concentração.Os livros são o grande aliado neste treino. No mais, o presidente devefazer sempre que quiser seu "desabafo", como disse, contra a imprensa.Se ficar combinado, de que ele não irá além das palavras.