Título: Poupança empaca investimentos
Autor: Almeida, Cássia; Barbosa, Flávia
Fonte: O Globo, 31/03/2010, Economia, p. 23
Analistas duvidam da capacidade do país de poupar para alcançar metas do PAC-2
RIO e BRASÍLIA
As projeções econômicas do governo que amparam a nova versão doPrograma de Aceleração do Crescimento (PAC-2), lançado anteontem, nãoencontram respaldo nas contas do mercado financeiro. Analistas alertamque não há poupança suficiente no país para financiar o volume deinvestimentos previsto pelo PAC-2. Ao divulgar os números do programa,o governo se baseou em projeções de que o país vá ter uma taxa deinvestimentos de 21,5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bense serviços produzidos pela economia) em 2014. Na conta dos analistas,para isso, seria preciso ter um nível de poupança de 19% do PIB ouseja, um salto de quase cinco pontos percentuais frente ao patamaratual, de 14,6%.
Economistas destacam ainda que o principalentrave para ampliar a poupança no Brasil são os gastos públicos enquanto famílias e empresas poupam mais do que gastam, a poupança dogoverno é negativa. No resultado final, o governo retira 15,9% do totalpoupado pelo país. Ou seja, para chegar ao crescimento econômicoestimado pelo governo de 5,5% até 2014, o país precisará investir epoupar mais com o governo gastando menos. Como chegaremos lá é apergunta que o economista-chefe da Convenção Corretora, FernandoMontero, fez ao olhar as projeções do PAC-2: A apresentação oficialdesfilou uma economia com mais investimento e crescimento, inflação nameta, divida pública caindo, juros menores e superávit fiscal. Faltou oslide que aborda a poupança por trás desse feliz cenário. Se não temosessa perna, o resto cai como castelo de cartas: os juros serão maiores,o investimento e o PIB, menores, e a dívida menos benigna.
Nascontas de Montero, para atingir o nível de investimento previsto (21,5%do PIB, ou R$ 525,8 bilhões em valores de hoje), a poupança precisariaser de 19% do PIB. E isso já considerando o ingresso de poupançaexterna.
O professor da PUC São Paulo Antonio Corrêa de Lacerdadestaca que enquanto alguns veem a poupança doméstica comopré-requisito para a expansão da economia, outros acreditam que apoupança é resultado do crescimento. Esta é a sua opinião, que não vêempecilhos para o país atingir o investimento projetado no PAC-2. Ofinanciamento pelo BNDES, pelo mercado de capitais e pelos bancospúblicos funcionaria como uma antecipação da poupança, afirma.
A poupança baixa é um problema estrutural do Brasil. A renda muito concentrada dificulta a acumulação de poupança.
O mundo quer financiar o Brasil, diz secretário
Para Montero, o caminho é reduzir os gastos públicos para aumentar a poupança do país.
PauloLevy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que ogoverno precisa elevar a parcela do investimento no gasto público.
A poupança é pró-cíclica. Se a economia cresce, aumenta também apoupança. Quem poupa mais são as empresas e, com o país crescendo, arentabilidade delas aumenta. Já o governo é despoupador explicaLevy.
Para o secretário de Política Econômica do Ministério daFazenda, Nelson Barbosa, o que parte dos analistas está questionando ése o Brasil não terá de recorrer a muita poupança externa paracatapultar o investimento. Isso significa ponderar o tamanho do déficitexterno que é saudável para a economia. Barbosa desconversa sobre osnúmeros, mas a equipe econômica projetou uma taxa de investimento de21,5% levando em consideração um déficit em conta corrente (trocas como exterior) de 3% do PIB em 2014. Confirmado, este cenário produziriauma taxa de poupança de 18,5% em 2014, igual ao alcançado em 2004, quefoi o pico dos últimos anos. Parte dos analistas, porém, acredita queeste cenário não é factível e que o déficit externo chegará a 6% ou 7%do PIB. Barbosa considera exagerada esta projeção: Todo economistasabe, ou deveria saber, que investimento gera poupança. É absolutamentesustentável que parte desta poupança venha de fora. O mundo querfinanciar o Brasil.