Título: Efeito cascata
Autor: Novo, Aguinaldo; D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 01/04/2010, Economia, p. 21
Após alta de 90% no minério de ferro, aço tem reajuste de até 15% e preço de carro pode subir
Primeiro foram as mineradoras, agora as siderúrgicas. Com a estimativa de que o preço internacional do minério de ferro poderá subir até 90% a partir de hoje ¿ esse teria sido o patamar acertado nas negociações entre as mineradoras Vale e BHP Billiton com as siderúrgicas japonesas ¿ as grandes fabricantes de aço começam a divulgar seus aumentos, que chegam a 15%.
Montadoras e produtores de eletrodomésticos, por sua vez, já avisam que não terão condições de absorver esse aumento de custo, num efeito em cascata que, segundo especialistas, poderá elevar em 0,26 ponto percentual a inflação ao consumidor este ano.
No caso do IGP-M, índice de inflação que considera também os custos no atacado, o impacto pode ser de dois a três pontos percentuais.
A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) vai reajustar, a partir de hoje, os preços de algumas linhas de aço plano. O percentual, não informado pela empresa, deve ficar acima de 10%, segundo o mercado. A Usiminas, que já havia anunciado aumento entre 11% e 15% para o produto vendido às distribuidoras, confirmou ontem que começará a negociar também diretamente com alguns setores, como montadoras e fabricantes de eletrodomésticos.
As siderúrgicas dizem que os reajustes são necessários para compensar a alta de preços do minério de ferro e também do carvão. Em reação, a indústria afirma que, dependendo dos novos valores, essa alta será repassada para os preços no varejo.
¿ Apesar do aumento de escala nas vendas nos últimos meses, não vejo como não fazer o repasse (para os preços finais) ¿ afirmou o presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Lourival Kiçula.
Pressão de até 3 pontos percentuais no IGP-M
As montadoras repetem o discurso: ¿ Reajustes que implicam alta de custos em algum momento serão repassados para os preços ¿ disse o diretor de uma grande montadora.
Ele frisou que a indústria automotiva é a segunda maior consumidora de aço no país, só perdendo para a construção civil: ¿ Em média, o aço representa 60% do peso de um carro.
O vice-presidente executivo do Instituto Aço Brasil (IAB), Marco Polo de Mello Lopes, disse que o aumento dos preços do aço é mesmo inevitável. Mas ressaltou que isso não justificaria ¿repasses exagerados¿ nos preços da indústria que têm o aço como insumo.
Segundo Lopes, um estudo encomendado pela entidade ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da USP, mostra que o peso do aço nos custos de produtos como carros e geladeiras seria menor do que as indústrias costumam alardear. Em um automóvel da marca Gol, da Volkswagen, por exemplo, embora o aço represente 55,7% do peso físico do modelo, representa somente 8,28% do seu valor. No caso de uma geladeira, o aço responde por 9% do custo de produção.
¿ Durante muito tempo o aço foi utilizado pelas indústrias como instrumento para alavancagem de preços. Mas não é um insumo tão inflacionário como se dizia. E o fato de termos a maior mineradora do mundo aqui não cria vantagem alguma para as siderúrgicas, porque pagamos o mesmo preço dos mercados internacionais ¿ disse ele.
Os reajustes das siderúrgicas terão efeito na inflação, segundo economistas. Para Felipe Wajskop França, do Banco ABC Brasil, o impacto médio para os preços ao consumidor pode ser de 0,26 ponto percentual ¿ devidamente distribuído ao longo de 2010. Um impacto que pode ser comparável, citou ele, ao aumento de transportes urbanos em São Paulo em janeiro: ¿ O reajuste de 17% (nos transportes urbanos) causou uma variação de 0,22 ponto percentual na inflação medida pelo IPCA (índice usado nas metas de inflação do governo) ¿ diz França.
Luiz Roberto Cunha, professor da PUC Rio, pondera no entanto que o impacto no IPCA é irrelevante, considerando, inclusive, que o Banco Central está mais atento para a inflação de 2011: ¿ Os reajustes são resultado da retomada da economia. E não vão mudar a política monetária do país.
Cunha lembra que, na inflação pelo IGP-M, o impacto será mais forte, de até três pontos percentuais, por causa da composição do índice, fortemente baseada em atacado.
E as pressões no custo do aço também virão do mercado externo. A maior siderúrgica do mundo, a ArcelorMittal, já avisou que vai repassar aos clientes a alta do minério de ferro O diretor-executivo da empresa, Lakshmi Mittal, estimou ontem que o preço da bobina laminada a quente para o mercado europeu deve subir 21%.
¿ O custo de produção do aço vai subir e será passado aos clientes ¿ disse Mittal à Bloomberg News.
O pano de fundo para os reajustes do aço é o aumento da demanda pelo produto, puxada pela China, e a decisão das mineradoras de modificar o sistema de precificação do minério de ferro, substituindo a fórmula de reajustes anuais por correções trimestrais.
Siderúrgicas asiáticas já teriam aceitado pagar valores entre US$ 110 e US$ 120 por tonelada de minério de ferro no próximo trimestre, contra US$ 60 no fim de 2009.