Título: EUA agradecem prazo para negociar
Autor: Barbosa, Flávia; Gomes, Wagner
Fonte: O Globo, 09/04/2010, Economia, p. 29
Após 6 anos, UE e Mercosul podem retomar acordo para livre comércio
BRASÍLIA e SÃO PAULO. O representante de Comércio dos Estados Unidos, Ron Kirk, que dirige a USTR (representação de comércio dos EUA, na sigla em inglês), telefonou ontem à tarde para o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, para agradecer diretamente pela decisão brasileira de estender o prazo de negociação em torno da retaliação no caso do algodão.
Um eventual acordo evitará a aplicação, pelo Brasil, de uma retaliação cruzada - nas áreas de bens, serviços e propriedade intelectual - no valor de US$829 milhões, autorizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Amorim reafirmou os bons olhos com que o Brasil vê a disposição americana de negociar efetivamente uma solução ao impasse. O chanceler alertou Kirk, porém, de que os EUA devem "encontrar uma situação que atenda planamente os interesses do Brasil" e que contribua "para melhorar a situação também dos países africanos", de acordo com nota divulgada há pouco pelo Itamaraty. Neste ponto, o Brasil se refere à mudança na fórmula de crédito às exportações americanas.
Amorim lembra que prazo para fechar acordo é curto
No telefonema, o ministro lembrou que o prazo para chegar-se a uma saída é curto, reforçando, desta forma, a determinação brasileira de não ceder em relação ao novo prazo final para as negociações.
Para conseguir a suspensão temporária do processo de retaliação, os EUA se comprometeram a interromper a liberação de subsídios às exportações e a criar um fundo, que receberá do Tesouro americano US$147 milhões por ano, para financiar os pequenos produtores brasileiros de algodão. Os EUA ainda reconhecerão, como estado livre de febre aftosa, sem vacinação, Santa Catarina. Com isso, espera-se a abertura daquele mercado para carnes bovina e suína in natura.
Mas o Brasil espera mais para desistir efetivamente das retaliações: a eliminação ou redução de subsídios domésticos à produção de commodities, com o algodão à frente. A medida, porém, só poderia ser entregue em 2012, quando o Congresso americano fizer a revisão da legislação agrícola (Farm Bill).
A União Europeia (UE) e o Mercosul estão retomando, após seis anos, a possibilidade de um acordo de livre comércio. Ontem, deputados do Parlamento europeu visitaram a sede da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) para participar de um debate com o setor privado. O ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, disse que há disposição política dos dois blocos para avançar nas negociações. A expectativa do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, é de que o acordo seja fechado este ano.
- Há uma grande resistência por um acordo por causa do desemprego, mas as negociações podem dar certo agora em razão da disposição política da UE e do Mercosul de avançar - disse Barbosa.
Um entendimento com a UE poderá proporcionar ao Mercosul o primeiro acordo de livre comércio com um grande parceiro.