Título: Amorim: Brasil, China e Índia afinados sobre o Irã
Autor: Beck, Martha; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 16/04/2010, O Mundo, p. 33
Após encontro de chefes de Estado em Brasília, chanceler diz que país não está isolado na posição antissanções
Martha Beck e Luiza Damé
BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou uma série de encontros bilaterais ¿ com Rússia, China, Índia e África do Sul ¿ em Brasília para defender o diálogo com o Irã sobre o desenvolvimento de seu programa nuclear. Segundo o chanceler Celso Amorim, Lula não fez qualquer pedido ao presidente chinês, Hu Jintao, ou ao premier indiano, Manmohan Singh, mas insistiu na ideia de que ainda é possível negociar um acordo sem recorrer às sanções econômicas. O ministro garantiu que o Brasil não tem medo de ficar isolado por defender a saída diplomática.
¿ Não temos essa preocupação.
Isso é preocupação de vocês, de ficar isolado. Antigamente, no futebol tinha o ponta esquerda que ficava isolado, porque ninguém passava a bola para ele. O Brasil não tem esse problema. O Brasil joga no meio de campo, recebe bola e passa bola ¿ afirmou.
Grupo dos Seis começa a discutir rascunho das sanções Amorim disse ter percebido uma afinidade de China e Índia com a posição brasileira: ¿ Houve troca de ideias sobre o processo e a melhor maneira de encontrar uma solução pacífica e negociada. A convicção que temos é que ainda é possível tentar. Nossa impressão é que a visão deles é que a eficácia das sanções é muito discutível, da mesma maneira que achamos que elas atingem as pessoas mais fracas e mais vulneráveis, e não os dirigentes.
Nos encontros, Lula disse ainda que o Irã deve ser flexível na hora de negociar com a comunidade internacional, ao mesmo tempo em que os demais países devem avaliar com cautela a eficácia de eventuais sanções: ¿ Nós desejamos que o Irã tenha direito a seu programa nuclear para fins pacíficos.
Mas é importante também que a comunidade internacional se sinta confortável de que esse programa não está sendo utilizado para fins militares. O presidente reiterou também sua convicção, baseada em experiências passadas, e na própria situação iraniana, de que sanções não só não são eficazes, como, em alguns casos, podem ser contraproducentes.
Brasil, Índia e África do Sul incluíram uma referência ao tema na declaração da IV Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do Ibas. No documento, os três países reconhecem ¿o direito do Irã de desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos¿ e pedem que ¿o Irã coopere com a Agência Atômica Internacional e siga resoluções da ONU¿.
Anteontem, em São Paulo, Lula chegou a dizer que é grave o fato de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ainda não ter conversado com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Segundo o presidente brasileiro, é preciso conversar ¿olho no olho¿.
Diplomatas da ONU disseram que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Rússia, EUA, Reino Unido e França) resolveram acelerar as negociações sobre a resolução que aplicaria uma nova rodada de sanções ao Irã em punição por seu programa nuclear.
Embaixadores do chamado Grupo dos Seis (os cinco membros do Conselho mais a Alemanha) iniciaram reuniões ontem para preparar um rascunho da resolução. Segundo fontes da ONU, os encontros se estenderão pelos próximos dias e semanas.