Título: Anfitrião controverso, mas atencioso
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 15/04/2010, O Mundo, p. 30

Aparência frágil esconde altivez

CAIRO. A gratidão do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pelo apoio de seu colega Luiz Inácio Lula da Silva a seu programa nuclear ficou clara na última terça-feira, durante a reunião com o grupo de autoridades brasileiras chefiadas pelo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. Referindo-se mais de uma vez a Lula como "meu amigo" e "meu fiel companheiro", Ahmadinejad é um interlocutor atencioso.

Antes da conversa, uma rápida oração, pedindo proteção a todos os presentes. O presidente iraniano quis saber quem era cada um e o que fazia. Ao receber de presente uma camisa da seleção brasileira, garantiu que estará torcendo para o Brasil na Copa da África do Sul.

- Quando ele está ouvindo, olha bem nos olhos da gente e, como todo iraniano, gosta de fazer elogios - observou um dos presentes.

Ahmadinejad só não é mais poderoso do que o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. À primeira vista, parece frágil, mas demonstra firmeza e eloquência quando começa a falar. Ele evitou comentar a polêmica nuclear e preferiu destacar as boas relações com o Brasil e a necessidade de ampliar o intercâmbio comercial e os investimentos. Seu recado a Lula - pedindo ajuda para convencer os americanos a desistir de novas sanções - foi enviado sutilmente: através de um alto funcionário, também discreto na abordagem ao ministro Miguel Jorge.

Ahmadinejad, no entanto, mencionou que seu país poderá enfrentar dificuldades em caso de sanções. Dizendo-se feliz com a ida da missão de 86 empresários brasileiros, ele garantiu estar ansioso pela visita de Lula, marcada para o próximo mês.

Aos 54 anos, o controverso líder iraniano é casado, pai de três filhos e sua origem é humilde. Hoje, Ahmadinejad - que tem um doutorado em Transportes Urbanos - controla com mão-de-ferro seu país, mas tem popularidade alta nas camadas mais pobres da população. Para muitos, a sombra de novas sanções ajudou-o: afastou os debates acerca da conturbada reeleição e deram lugar à preocupação nacional diante da ameaça dos "inimigos" americanos.

*A repórter viajou a convite do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior