Título: Irã perto da bomba atômica
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 15/04/2010, O Mundo, p. 30

EUA preveem que país poderá enriquecer em um ano material para arma nuclear

O Irã teria condições de produzir urânio altamente enriquecido para uma bomba nuclear no prazo de um ano. A declaração foi feita ontem pelo tenente-general Ronald Burguess, diretor da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, durante uma audiência na comissão de armamento do Senado sobre a ameaça nuclear iraniana. Os serviços de inteligência sustentam suas previsões na capacidade das novas centrífugas nucleares do Irã de produzir urânio altamente enriquecido e em maior velocidade.

Em seu testemunho aos senadores, o general James Cartwright, o segundo na hierarquia do Estado-Maior das Forças Armadas, acrescentou, no entanto, que seriam necessários mais três ou cinco anos para que a bomba pudesse ser utilizada. No depoimento aos senadores, foi revelada também a preocupação da inteligência com um programa de míssil intercontinental que estaria sendo desenvolvido pelos iranianos, capaz de atingir os EUA.

A sessão da comissão do Senado ocorreu um dia depois do encerramento da Cúpula sobre Segurança Nuclear, em Washington, na qual o presidente Barack Obama conclamou os líderes dos 47 países presentes a aumentar a pressão sobre Teerã.

Matthew Bunn, professor da Harvard Kennedy School e membro do Grupo de Trabalho de Materiais Físseis (FMWG), organização de estudos sobre a segurança nuclear e não proliferação, diz que, "infelizmente", as previsões são "bastante plausíveis".

- Hoje, com as centrífugas de nova geração que tem, de melhor desempenho, o Irã não teria muitos problemas técnicos, como há alguns anos, para construir uma arma nuclear nos prazos citados - disse ao GLOBO.

Para Kingston Reif, vice-diretor do Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, os testemunhos no Senado confirmam os relatórios de 2007 dos serviços nacionais de inteligência, segundo os quais o Irã teria material físsil em quantidade e qualidade para construir um armamento nuclear utilizável entre 2013 e 2015.

- As informações que temos relatam, realmente, que o Irã teria urânio enriquecido o bastante para ter pronto uma arma nuclear em um ano.

Aliados voltam a discutir sanções

O Irã continua a ignorar as ameaças de Washington e não parece disposto a aceitar qualquer imposição da comunidade internacional. Ontem, o diretor da Agência Iraniana de Energia Atômica, Ali Akbar Salehi, disse que as centrífugas do país já produziram cinco quilos de urânio enriquecido a 20%, que seriam destinados a um reator de pesquisas médicas. A percentagem está ainda bem abaixo dos 80% a 90% necessários para uso bélico, mas o anúncio pode ser interpretado como mais uma provocação do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Numa carta enviada ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o governo iraniano denunciou a recente Revisão da Postura Nuclear americana como uma ameaça implícita de ataque nuclear ao país.

Questionado pelos senadores se acreditava que a China apoiaria sanções contra o Irã numa votação no Conselho de Segurança da ONU, o subsecretário de Estado para Relações Políticas, William Burns, disse:

- Sim, senhor, acredito.

No entanto, acrescentou que seria "muito difícil" conseguir a aprovação de China e Rússia para sanções que visassem as importações iranianas de combustível e outros produtos derivados do petróleo.

A Rússia anunciou ontem que um reator nuclear que está construindo para a usina iraniana de Bushehr estará pronto em agosto. Sergei Kiriyenko, presidente da empresa estatal nuclear russa, disse que a usina não ameaça o regime de não proliferação de armas. Mas, a secretária de Estado, Hillary Clinton, criticou a medida, dizendo ser prematura por não haver garantias sobre o programa atômico iraniano. Ontem, representantes de China, EUA, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha discutiram em Nova York um projeto de resolução que prevê sanções contra a Guarda Revolucionária iraniana nas áreas de armamento, energia, navegação e finanças.