Título: Com US$ 3,35 trilhões em reservas, Bric quer reduzir peso do dólar
Autor: Oswald, Vivian; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 17/04/2010, Economia, p. 28
Grupo busca comércio em moeda local e briga por mais voz nos fóruns globais
BRASÍLIA. A união dos países que integram o Bric ¿ Brasil, Rússia, Índia e China ¿ pode começar a incomodar as nações mais ricas, mas eles precisam resolver divergências internas para que o peso dos números se traduza em autonomia e cacife político e econômico.
Ainda assim, o grupo começa a pôr as cartas na mesa.
Donos de reservas internacionais que somam nada menos que US$ 3,35 trilhões, o Bric deixou claro na sua II Cúpula, em Brasília, que um dos temas em que vai entrar com tudo de agora em diante é a primazia internacional da moeda americana nas relações de troca.
Pela primeira vez, o fórum pôs no papel, na declaração final do encontro, que busca um acordo para negociar com moedas locais quando o assunto for comércio exterior.
¿ O mais importante talvez a médio e curto prazo (nas relações comerciais com o Bric), e venho conversando isso com o presidente do Banco Central, é a questão da troca em moedas locais. É possível (a adoção do mecanismo), cria um colchão que nos protege de outras crises internacionais, estimula as pequenas e médias empresas. Mas não é assim de uma hora para outra, ninguém acaba assim com a lei da oferta e da procura ¿ afirmou o chanceler Celso Amorim, deixando clara a intenção do Bric.
¿ O Bric não é mais retórica.
Há uma articulação permanente dos quatro países nos principais fóruns globais, como o G20 ¿ reforçou um integrante da equipe econômica.
Crescimento acelerado do grupo é trunfo no pós-crise O anúncio do que pode vir a ser um ¿BNDES do Bric¿ para estimular os investimentos em infraestrutura é outro caminho de pressão, pois confirma o poder de fogo dos quatro. Seus bancos de fomento hoje têm juntos uma capacidade de emprestar muito maior do que a dos tradicionais organismos internacionais.
Isso representará cada vez mais independência e capacidade de articulação.
Na declaração conjunta da cúpula, o Bric avisou que manterá elevadas as reservas que os ajudaram a superar mais depressa a crise global e lembrou o aporte bilionário que fez ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial (Bird), que quer traduzido na composição do comando destas instituições.
Tudo isso às vésperas da reunião anual do FMI e do Bird.
O próprio Fundo reconhece o poder do grupo ao destacar que o Bric será responsável por 61,3% do crescimento global entre 2008 a 2011.
O especialista em economia internacional Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP, diz que o potencial do Bric como líder global é inegável, especialmente considerando que as quatro economias vão crescer acima da média mundial nos próximos anos. E isso não interessa aos Estados Unidos, destacou o economista.
Especialista é cético sobre comércio em moeda local Aos europeus, incomoda a ameaça do grupo na estrutura de poder do FMI e Bird, no quais detêm força desproporcional à sua participação no PIB global.
¿ No pós-guerra, os Estados Unidos se mantiveram como principal liderança de poder no mundo. Esse quadro está mudando e não interessa aos americanos que surjam novas potências, tanto do ponto de vista econômico, como é o caso do Bric, nem político ou militar ¿ diz Lacerda.
Para o diretor do Programa de Economia Internacional do instituto Carnegie, Uri Dadush, não resta dúvida sobre o poder do Bric nas discussões sobre os organismos internacionais e mudança do clima, por exemplo. Ex-diretor do Bird, Dadush não acredita que seja realista, porém, a possibilidade de estes países fazerem comércio exterior com moedas locais: ¿ É o mercado quem decide isso. Vejo as discussões sobre moeda e a própria questão do dólar como moeda referência como um sinal político importante para que os Estados Unidos façam seu dever de casa e saibam que não têm o controle de tudo.
Para o embaixador Rubens Ricupero, o acordo firmado pelo Bric na área de bancos de desenvolvimento é a primeira ação concreta no caminho para a integração.
Ele acredita que o grupo tem potencial para se tornar uma liderança entre os países em desenvolvimento, mas, antes disso, precisa resolver uma suas diferenças internas.
¿ O documento não defende claramente a candidatura do Brasil e da Índia (ao Conselho de Segurança da ONU) porque, na realidade, China e Rússia não querem apoiar essas iniciativas ¿ explica o embaixador.
Para Lacerda, a principal diferença hoje está na política cambial: ¿ A China desvaloriza o seu câmbio artificialmente, enquanto o Brasil tem uma moeda valorizada. Essa diferença torna praticamente inócua qualquer ação de integração na área de comércio.
Ainda assim, o potencial comercial dos quatro é grande, com a China sendo o maior importador do mundo. O Bric representa um mercado consumidor de 40% da população mundial.