Título: Entrou quem quis, sai quem quer
Autor: Tavares, Mônica; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 23/04/2010, Economia, p. 28

Lula diz que, se preciso, Estado fará usina sozinho

BRASÍLIA. Ao ser perguntado sobre possível desistência de empresas que participaram do consórcio vencedor de Belo Monte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou ontem que, se necessário, o Estado fará sozinho a obra da usina, no Pará. Com veemência, Lula disse que as empresas podem sair ou entrar do grupo, porque a porta está ¿sem cadeado¿. Apesar desse tom, Lula disse não ver problemas na entrada de novos parceiros ¿ especula-se no mercado que Camargo Corrêa e Odebrecht, que abandonaram a disputa e foram acusadas de pressionar o governo nos bastidores, estariam interessadas em aderir.

Há 15 dias ¿ quando pairavam dúvidas sobre a existência de concorrência na licitação, após a desistência de Camargo Corrêa e Odebrecht ¿ o presidente já havia garantido que Belo Monte sairia de qualquer maneira. Não à toa o governo se empenhou para formatar e viabilizar um segundo consórcio, liderado pela Chesf.

¿ O leilão, entrou quem quis, sai quem quer depois. Não tem nenhum cadeado fechando a porta. Tem várias portas: quem quiser entrar entra; quem quiser sair sai; não tem problema. A única coisa que digo é o seguinte: nós, enquanto Estado público, enquanto empresa pública (Eletrobras), faremos sozinhos, se for necessário fazer ¿ enfatizou o Lula.

Perguntado se construtoras poderiam aderir ao projeto, como Camargo Corrêa e Odebrecht, ele disse que não via problema: ¿ Pode ajudar, é só você querer.

Pela primeira vez após o certame, o presidente falou longamente sobre a questão de Belo Monte no Itamaraty, depois de um almoço com o presidente do Líbano, Michel Sleiman.

Lula defendeu o leilão e afirmou que os críticos reclamam até do baixo preço para a energia.

¿ Belo Monte, Santo Antônio e Jirau são coisas que nossos adversários torcem para que não dê certo. Vi um cidadão dizer: ah, isso é política. Quem não quis fazer política fez o apagão ¿ disse o presidente, em referência ao racionamento de 2001, na gestão FH.

Lula ironizou as críticas a Belo Monte: ¿ Agora, o argumento dos contra foi o de dizer que o preço foi barato. Achei isso fantástico! Foi um grande leilão porque não é uma empresa que impõe o preço que ela quer.

Lula reclamou, sem citar o nome, que exintegrantes do governo FH e que eram do setor energético teriam formado uma ONG a partir da qual se fariam críticas ao modelo de gestão do setor elétrico na administração do PT.

¿ Tem uma instituição aí, que tem muita gente que trabalhava no governo quando teve o apagão, em 2001, e essa gente levanta de manhã e vai dormir à tarde fazendo figa para que haja um apagão nesse país. Orgulhosamente, vou dizer: não terá apagão, a não ser que haja uma catástrofe. E contra catástrofe, ninguém pode, só Deus pode.

O presidente também rebateu as críticas ao projeto ambiental, afirmando que é preciso ter informação para dar ¿palpite correto¿: ¿ São R$ 3,5 bilhões do custo do projeto para impacto ambiental.

A pre-candidata à Presidência Dilma Rousseff disse que a polêmica é normal: ¿ Estamos habituados com polêmica sobre hidrelétrica. Espero que resolva a contento, mas não posso mais falar em nome do governo. Não posso dar explicação, até porque não as tenho.