Título: Crise europeia merece atenção do Brasil
Autor:
Fonte: O Globo, 29/04/2010, Opinião, p. 6

O drama grego, as crises portuguesa e espanhola, para citar apenas alguns dos casos mais complicados na União Europeia, fazem lembrar várias tragédias latino-americanas, entre elas algumas brasileiras. Quem diria, hoje são países como Grécia, Portugal e Espanha que se defrontam com dívidas impagáveis e precisam recorrer a linhas de socorro internas na UE e do Fundo Monetário Internacional, para tentar acertar as contas, obrigados, em troca, a aplicar duras terapias a fim de reduzir gastos e fazer caber as despesas dentro da arrecadação de impostos.

O redemoinho que arrasta economias europeias para o buraco negro da insolvência interna e externa tem a ver com o tumulto financeiro global, deflagrado a partir do mercado de hipotecas americano, em 2008. Com o abrupto entupimento do sistema de irrigação de crédito em escala planetária, bancos ficaram tecnicamente falidos no mundo inteiro.

E só não fecharam as portas devido à rápida e maciça injeção de recursos pelos governos.

Alguns viraram pó, de fato.

Ao lado disso, a recessão mundial reduziu a arrecadação de impostos. Deu-se, então, a conjunção maligna: gastos fartos, arrecadações em queda. Os déficits se tornaram inexoráveis.

Não se pode, também, esquecer o papel deletério de políticas fiscais irresponsáveis, como parece ter acontecido pelo menos na Grécia, e não detectadas pelos sistemas de controle da UE ¿ certamente a serem revistos depois da crise.

Acionado o alarme da crise no bloco, a primeira reação dos países-líderes Alemanha e França foi rejeitar o socorro do FMI. Se a UE desatasse sozinha o nó, daria forte demonstração de poder. Salvaria o euro sem ajuda externa, mas não foi possível.

Anteontem, os títulos da dívida grega foram nivelados, pela agência S&P, aos papéis ¿podres¿ (junk) , geralmente emitidos por países subdesenvolvidos.

Os de Portugal também tiveram o risco ampliado pela agência, mas não tanto. E ontem foi a vez da Espanha, uma economia quatro vezes maior que a grega. O euro, por inevitável, se desvaloriza em relação ao dólar, e as bolsas vão atrás, enquanto aumenta a possibilidade do default, da insolvência de países.

Este, o pior desfecho, pois imporá perdas imprevisíveis aos credores. Por isso, a cúpula da UE se movimenta para, junto com o FMI, lançar a operação de socorro. Para começar, da Grécia, país com 13% do PIB de déficit público e uma dívida de curto prazo irresgatável. Como o risco do país aumentou, ele já paga pelos títulos que emite juros de 10% ao ano (mais de três vezes o que é cobrado à Alemanha).

A dívida virou uma bola de neve.

Ontem, sucederam-se reuniões na Europa com a participação de Dominique StraussKahn, diretor-gerente do FMI. Para complicar, Angela Merkel, chanceler alemã, chave em toda esta operação, evita parecer benevolente, porque tem uma eleição regional importante no início de maio. Apenas a Grécia pode exigir um pacote de US$ 160 bilhões para os próximos três anos.

Lições para o Brasil e aspirantes à Presidência: continuar a acumular reservas; e redobrar os cuidados com a gastança. Já fomos a Grécia no passado; deveríamos fazer tudo para não voltar a incorporar este personagem.