Título: TV paga crescerá até 20% no país este ano e banda larga é oportunidade
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Fonte: O Globo, 02/05/2010, Economia, p. 40

Presidente mundial da DirecTV aposta ainda na tecnologia de alta definição ENTREVISTA Michael White

O americano Michael White, 57 anos, presidente mundial do grupo DirecTV desde 1º de janeiro (ao largar o comando da Pepsi International), escolheu o Brasil como destino de sua primeira viagem internacional como o principal executivo da empresa.

E não é à toa, diz ele, que considera o Brasil um dos mais promissores mercados emergentes do mundo. A razão é que, enquanto nos Estados Unidos, um mercado onde 95% dos lares com TVs já assistem a TVs por assinatura (e onde a concorrência da internet é feroz), no Brasil o espaço para crescer é imenso.

Afinal, só 14% dos telespectadores brasileiros assinam TV paga num mercado onde a renda e a economia estão em expansão.

E melhor: com o país sendo sede de uma Copa (2014) e de uma Olimpíada (2016). Tudo isso em meio um momento de explosão tecnológica global no mercado de aparelhos de TV, com uma variedade de modelos nunca vista chegando ao mercado: de aparelhos finos (LED) e de alta definição e até as TVs em 3D.

¿ A TV paga vai crescer até 20% este ano ¿ prevê White, que desmentiu os rumores de que a DirecTV pretende se livrar de seus negócios na região.

Para ele, o momento é de crescer, inclusive como parte do projeto do governo brasileiro de universalizar a banda larga, em parceria com outros grupos.

White acha que, com a complexidade continental e social do Brasil, o projeto não pode prescindir da participação privada e do uso de tecnologias variadas

Gilberto Scofield Jr.

SÃO PAULO

O GLOBO: Há muito se fala que a DirecTV pode vender as operações na América Latina, concentrandose nos EUA. É verdade? MICHAEL WHITE: Não. Devemos investir para aumentar o intercâmbio entre as operações nos EUA e a região. O mercado americano ¿ onde 95% dos telespectadores são assinantes de TV paga, contra 25% no México e 14% no Brasil ¿ já está maduro e é óbvio que as maiores oportunidades estão aqui. Entre os Bric, temos uma pequena participação de 20% na Índia e não estamos nem na China nem na Rússia. Nossa posição maior é no Brasil ¿ a DirecTV é sócia na SKY com 74% do capital, em parceria com as Organizações Globo ¿ e nosso foco agora é a América Latina.

Analistas dizem que as operações da DirecTV na região não se refletem nas ações do grupo.

WHITE: Esse é o tipo de argumento de gente que quer que nos livremos das operações na América Latina. Não acontecerá.

Na minha opinião, os EUA estão muito piores que a América Latina.

A indústria de TV paga está em oito milhões de casas no Brasil, ou seja, em 14% dos 50 milhões de residências com TV.

Nos mercados emergentes, você vê a ascensão da classe média, o que é ainda maior no Brasil. Mas também sabemos que, para capitalizar esta oportunidade, precisamos de diferentes pacotes, com foco especial nas classe média e baixa. Daí nossa atenção aos pacotes pré-pagos e a Sky Digital (alta definição).

Quanto o mercado de TV paga vai crescer este ano no Brasil? WHITE: Entre 15% e 20%. Vamos crescer com novos assinantes e com os consumidores que querem pacotes melhores, como os de alta definição.

Como vai a TV de alta definição no Brasil, especialmente a Sky Digital? WHITE: Muito bem. Nos EUA, no fim do ano, 60% dos telespectadores estarão vendo TV em alta definição. O Brasil começou agora e tem cerca de 3% dos telespectadores com a tecnologia.

Nós completamos um ano com o Sky Digital e temos 180 mil assinantes e 29 canais. Isso é 9% dos assinantes da empresa, de cerca de 1,8 milhão. Há um espaço enorme para crescer.

E os planos da TV interativa, com a possibilidade de comércio eletrônico via TV? WHITE: A tecnologia que permite ao consumidor comprar via controle remoto ainda está muito no início. O que se desenvolve mais rápido são os aplicativos para o iPhone, que permitem que você programe o decodificador da TV paga para gravar determinada atração pelo telefone.

Como o senhor vê o mercado de banda larga no Brasil? WHITE: Procuramos novas formas de parceria para um mercado que vai crescer muito. Nos EUA, trabalhamos com as empresas de telefonia, como AT&T e Verizon, oferecendo pacotes. E no próximo semestre lançaremos uma nova tecnologia para conectar o aparelho de TV à internet. Em breve, o Brasil estará fazendo a mesma coisa.

¿¿ A DirecTV está interessada em participar da universalização da banda larga no Brasil? WHITE: Certamente. O Brasil é um país tão grande, tão populoso, com uma diversidade de públicos, rendas e de geografia enorme, que uma solução do tipo uma única rede é muito simplista.

Será preciso ter investidores privados com diferentes tecnologias e com competição.

Como o senhor vê a integração de programas de TV com as redes sociais como Twitter e Facebook? No Oscar, o debate na rede acabou aumentando a audiência da festa na TV. A ameaça da internet seria relativa? WHITE: É claro que levamos em consideração como ferramentas como Twitter, Google e Facebook podem aumentar a audiência.

Tanto que pretendemos adicionar à TV paga serviços como o Facebook e Twitter que, a partir deste ano, o espectador já poderá acessar de sua TV nos EUA.

E a TV em dispositivos móveis, como celulares, laptops e iPads? WHITE: Ver TV nestes aparelhos não é a melhor das experiências pela dimensão pequena da tela.

Os iPads são uma experiência melhor, mas é uma tecnologia muito nova. O que não impede que pensemos em programas para este formato, como os melhores momentos de um jogo de futebol. Mas a tecnologia exige muita banda para funcionar.

O que senhor acha do Projeto de Lei 29, que quer regular a TV paga no Brasil? WHITE: Trabalharemos com nossos provedores para oferecer o melhor conteúdo possível, qualquer que seja a decisão. Mas, ao lado deste mundo globalizado em que vivemos, há um mundo de interesses locais. No fim do dia, o telejornal a que você assiste é local, mas as pessoas também querem ver o que outras pessoas do mundo estão vendo