Título: Na volta dos socialistas ao poder, crise levará Grécia à recessão de 4%
Autor:
Fonte: O Globo, 06/05/2010, Economia, p. 22

Descontrole de contas faz premier abandonar planos e seguir FMI e UE

RISCO EUROPEU: Confusão política reina no país, com troca de acusações PARIS. O primeiro-ministro George Papandreou teve muito pouco tempo para comemorar sua chegada ao poder em outubro de 2009, numa eleição que marcou a volta dos socialistas ao comando da Grécia. Ele recebeu um verdadeiro ¿presente de grego¿, segundo a expressão popular: a pior crise do país das últimas décadas. Hoje, com o país afundando e ameaçando tragar outros países da zona do euro, Papandreou praticamente engaveta a maior promessa de campanha: lançar um plano de crescimento, além de lutar contra a corrupção. A economia grega, no melhor dos cenários, vai contrair 4% este ano, diz o governo, e sofrer violento aperto de cinto nos próximos três anos. Com o país com a corda no pescoço, o premier não tem outra opção a não ser seguir a cartilha dos países da zona do euro que tentam socorrer a Grécia ¿ sobretudo uma Alemanha furiosa ¿ e o Fundo Monetário Internacional (FMI). A crise se alastrou quando Papandreou descobriu que as contas do país estavam em pior estado do que todos imaginavam. A Comissão Européia, em Bruxelas, não usou meias palavras: o governo conservador do partido Nova Democracia, que estava no poder na Grécia desde 2004, mentiu sobre o déficit (13,6% do Produto Interno Bruto em 2009) e a dívida pública monumental de C300 bilhões, hoje as principais causas da crise. Mas ninguém na classe política ¿nem conservadores, nem socialistas ¿ escapa das críticas de Bruxelas. Não era a primeira vez que a Grécia mentia: em dezembro de 2004, a Comissão Européia fez um alerta aos gregos, após descobrir que o país havia falsificado números do déficit público para entrar na zona do euro. O euro entrou em circulação no país em janeiro de 2002. Filho e neto de ex-premiês gregos, Papandreou era ministro de Relações Exteriores quando os socialistas estavam no poder entre 1999 e 2004, justamente no período que marcou a entrada da Grécia na zona do euro. Em dezembro de 2009, a Grécia entrou numa espiral caótica. Três grandes agências de classificação de risco rebaixaram o país, obrigando o premier a anunciar uma primeira rodada de cortes drásticos de despesas, seguida de outra em janeiro. Enquanto isso, reina a confusão política no país. A oposição de direita ¿ acusada de manipular dados do déficit e pela crise atual ¿ está em cima do muro. Antonis Samaras, o líder da Nova Democracia, o maior partido de oposição, não revela se aprovará o pacote de medidas drásticas no Parlamento. Já o chefe do partido de extrema direita Laos, Georges Karatzaferis, acusa os líderes da UE e o FMI de serem os novos ¿homens de Roma (imperialista)¿, diz que querem esmagar a ¿dignidade grega sem dar garantia para amanhã¿. O partido comunista (KKE) denuncia as ¿ mentiras do governo¿ e a Coalizão da Esquerda Radical (Syriza) exige um referendo para ¿o povo escolher seu futuro¿.