Título: Para analistas, megassocorro vai estancar crise
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 11/05/2010, Economia, p. 17
Arturo Porzecanski, da American University, afirma que risco era repetir efeito dominó como na Ásia, em 1997
Fabiana Ribeiro
Após uma ajuda de C 750 bilhões (US$ 975 bilhões) para evitar que a crise europeia tomasse proporções ainda maiores, ficou a sensação de que o pior já passou. Essa é a avaliação de especialistas como Arturo Porzecanski, professor de finanças internacionais da American University, de Washington.
Segundo ele, a boa reação do mercado financeiro se deve em grande parte ao esforço dos Estados Unidos em apoiar a União Europeia (UE).
Empurrados pelos EUA, que sabiam que a Grécia poderia acabar com a recuperação global, os países da União Europeia dobraram os recursos de ajuda.
Eles entenderam que mais US$ 50 bilhões ou US$ 100 bilhões não iriam adiantar nada. Era preciso abrir todas as janelas e todos os mecanismos de ajuda, assim como feito pelo governo americano e pelo Federal Reserve (o banco central americano) em 2008.
O especialista criticou a demora em sair um plano de apoio à Grécia. Ele lembra que a atual turbulência poderia se transformar numa crise como a da Ásia, em 1997, cujo foco inicial foi a Tailândia, mas, em seguida, outros países da região foram a nocaute. Para ele, a lentidão tem origem na falta de unidade política do continente europeu: Apesar de haver uma comunidade financeira, não há unidade política. Muitos países do bloco europeu não fizeram suas reformas porque deixaram se levar pela corrente favorável das nações maiores. O déficit fiscal de 3% do PIB, que era teto, passou a ser piso por anos. Não houve disciplina nos bons tempos.
Por isso, agora, tem de se fazer uma política de choque.
É por isso que a América Latina tem muito a aprender com esse episódio, diz: Ainda há tempo para se fazerem reformas graduais.
Não se pode deixar os gastos públicos crescerem de forma desordenada.
Economista vê efeitos limitados no Brasil Segundo José Alfredo Coutiño, diretor para a América Latina da Moodys.com, o socorro resolve parte do problema: a falta de confiança nos mercados e o pânico financeiro.
A possibilidade de se evitar um default (calote) em qualquer um dos Piigs (acrônimo para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, os países mais vulneráveis da zona do euro) é extremamente alta. O total aprovado pelo fundo cobre as necessidades financeiras dos países nos próximos quatro anos.
Eles não vão precisar implorar por financiamento nos mercados.
O problema é que esses governos vão precisar implementar um ajuste fiscal disse Coutiño, para quem o pacote vem para preservar o euro.
Economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do Banco Central, Ilan Goldfajn ficou otimista com o pacote.
É realmente grande. E lida com a questão da liquidez e da solvência de alguns países.
Tem algumas consequências que vamos sofrer ao longo do tempo. Mas não é uma crise desorganizada.
Ele afirma que os países terão de fazer o ajuste fiscal em algum momento, o que fará os europeus crescerem menos O euro vai continuar funcionando, e, portanto, vai ser um problema para alguns países ganharem competitividade.
Os efeitos no Brasil serão limitados, na opinião do economista, já que a relação do Brasil com a Europa não é tão forte.
A crise já teve reflexos, o dólar subiu. Mas o impacto no crescimento não é tão elevado avalia.