Título: 'Não chores por mim, Grécia'
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 11/05/2010, Economia, p. 17

Gregos ironizam comparação da situação os país com crise argentina de 2001

Os ingressos estão esgotados, há semanas, para a estreia, hoje, do musical Evita no Teatro Badminton, um dos mais populares de Atenas. A primeira montagem na Grécia da saga da exprimeiradama argentina será assistida por 2.500 espectadores, que desembolsaram de C 20 (R$ 46) a C 70 (R$ 164) por cada entrada. Do lado de fora do teatro grego, ironicamente, o país de Eva Perón tem sido lembrado diariamente por muita gente, com ou sem cacife para assistir à superprodução. Não faltam comparações entre a atual situação do país e a da Argentina em 2001.

Não chores por mim, Grécia, estão todos brincando por aqui contou o taxista ateniense Yani Panayoutou, de 60 anos. Como a Argentina, vamos passar por três anos de muita provação. Mas, se tudo der certo, vamos sobreviver.

Assim como a Argentina há nove anos, a Grécia enfrenta o maior déficit fiscal de sua história. Em 2001, os argentinos viveram o confisco dos depósitos bancários, a desvalorização do peso e o calote da dívida pública. Os gregos estão tendo que se segurar no euro. E os violentos protestos nas ruas de Atenas, na semana passada, lembraram os que foram vistos na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, em dezembro de 2001.

Para o jornalista e analista grego Ioannis Michaletas, que preside o escritório em Atenas da Fundação World Security Network, o remédio receitado agora à Grécia pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) é o mesmo que a Argentina teve que engolir no começo da década. Austeridade fiscal, aumento de impostos e cortes orçamentários fazem parte da receita-padrão prescrita pelo FMI há décadas a países em crise.

Sobre as soluções de FMI em geral, acredito que o mundo ocidental, nesse caso representado pela UE, repete sempre os mesmos erros. O FMI não tem uma mentalidade pró-desenvolvimento dos países nos quais se envolve. Se tornou um mero coletor de dívidas afirmou Michaletas. É preciso que se reinventem ideias, como considerar que dívidas públicas possam ser beneficiárias se levarem a uma maior produção e uma elevação no nível de vida.

Michaletas assinala, no entanto, que o envolvimento do FMI na crise grega foi importante para cutucar o bloco europeu, que acabou, mesmo que com atraso, aprovando uma importante ajuda financeira à Grécia.

Já nas ruas do país, a ajuda do FMI e da UE atrelada ao duro pacote fiscal aprovado na sexta-feira passada não tem encontrado boa receptividade. Segundo pesquisa do jornal grego Kathimerini, 68% da população do país são a favor da realização de protestos e greves, mesmo que só 39% consideram participar das demonstrações de forma ativa. Apenas 23% dos gregos apóiam as medidas.

As principais centrais sindicais do país planejam decretar mais uma greve geral nos próximos dias, assim como aconteceu na semana passada.

Ionnis Michaletas acredita que os protestos vão piorar ainda mais, principalmente depois do verão, por volta de setembro, quando as medidas econômicas começarem a ser sentidas realmente no bolso dos trabalhadores e dos aposentados e o índice de desemprego dê um salto. Ele ressalta, no entanto, que talvez não seja preciso chorar demais pela Grécia. O país pode sofrer menos do que se pensa, já que a economia paralela representa de 40% a 50% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país).